Venho de um tempo em que, para a criança pequena, era corriqueira a tal pergunta: ‘O que você quer ser quando crescer?’. Recordo de que essa indagação não nos evocava mal estar, tampouco sensação de cobrança, mas ao avesso disso, acionava um estado particular de investigação curiosa em busca de possibilidades pessoais. Mergulhávamos em condição sonhante. Vasculhávamos nossos desejos e cantinhos mais distantes, e em imaginação nos constituíamos como juízes poderosos, bailarinos rodopiantes, médicos ou psicólogos heroicos, professores adorados, e tantas outras configurações possíveis. Eu tinha um primo que diante dessa pergunta, respondia: ‘Eu quero ser índio’. Valia também! Tudo era válido na medida em que se podia permitir a construção do desejado, e assim, levemente como no bater das asas de uma borboleta, compúnhamos nossos sonhos e tentávamos dar formas a ele.
Ao escrever este ensaio, nesse momento, acabo por me questionar por que coloquei todos os verbos no passado. O que os impede de estarem no presente? Somos capazes de constituirmos novos sonhos e atribuirmos a eles um formato possível, neste tempo atual que nos permeia? Mesmo que as tais asas já não batam mais com a leveza e fluidez da época de meninice, ainda podemos ser bem-te-vis cantantes. Para os dias atuais, parece então ser conveniente renovar a pergunta: ‘O que você quer ser depois de crescido?’. Eu realmente fico aqui torcendo para que a nossa resposta possa conter uma proposta incessante de ver adiante, ver de um novo lugar, de verdejar.
O grande poeta Manoel de Barros, em suas Memórias Inventadas, cujas histórias revelam contos sobre os três momentos que alicerçaram sua vida, referindo-se sensivelmente às suas três infâncias, diz assim: ‘Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento - mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. [...] Foi ai que encontrei Einstein. Que me ensinou esta frase: a imaginação é mais importante do que o saber. Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo’. (Editora Planeta, p.183)
Com a passagem do tempo, tendo já encontrado nossas profissões, constituído famílias, e até, quem sabe, desenvolvido certa erudição, resta-nos revolver o que é estático, em encontro vitalizador com a imaginação e com aquilo que há de mais sonhante e lúdico dentro de nós. Precisamos não endurecer, não acomodar, nem robotizar. Parece que é isto que nos renova, configura, e reconstrói contornos pessoais, diante de uma realidade que a maturidade nos traz e que nem sempre se mostra de forma amena.
O Cinema e Psicanálise de Franca, que é vinculado à Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, está comemorando seu sexto aniversário. Desde o início deste projeto, todas nós da Comissão Organizadora imaginamos um espaço em que, junto a vocês, poderíamos conversar sobre as emoções que permeiam nossa existência, mostrando as cores vivas que a psicanálise pode nos revelar. Ao longo destes seis anos continuamos sempre a sonhar, desejantes de dar continuidade aos eventos mensais da forma como vêm acontecendo. Alegra-nos ver a casa lotada, com participação viva de todos, possibilitando a construção de reflexões e elaborações possíveis às nossas mentes. Renova-nos perceber que, após cada encontro e cada apresentação, saímos transformados pelo mergulho em vivências permeadas ao pensamento psicanalítico e ancoradas à arte do cinema.
Coincidência ou não, amanhã apresentaremos no anfiteatro do Centro Médico o belo e inspirador filme Mãos talentosas: a história de Ben Carson, cuja sessão é comemorativa ao dia do médico e aberta ao público em geral. Baseado em uma história verídica a respeito de um neurocirurgião talentosíssimo, ainda vivo, oriundo de uma família pobre de Detroit, e que apesar de todas as limitações que a vida lhe impôs, vislumbrou coisas para além do que seus olhos podiam ver. Um momento de inspiração de que o sonho nos alimenta, e a busca a ele nos define. Contaremos neste evento com os comentários de Silvana Vassimon, Psicóloga, Psicanalista, Analista Didata da SBPRP e Membro Associado da SBPSP, a qual associa à sua riqueza de conhecimento uma grande sensibilidade, que certeiramente nos enriquecerá em reflexões e novas construções.
Onde assistir
Mãos talentosas: a história de Ben Carson
Local: Rod. Tancredo Neves (Franca/Claraval) Km2
Data: 18 de outubro às 15 horas
Informações: (16) 3722-5215
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