Mininotas


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Definição de justiça
No Museu do Louvre, em Paris, numa de suas alas, pode-se ver uma pequena estrela de diorito preto, sobre o qual, numa língua por muito tempo misteriosa, está escrita a seguinte frase: HAMURABI VEIO AO MUNDO PARA ESTABELECER A JUSTIÇA, PARA EVITAR QUE OS FORTES DEFRAUDEM OS FRACOS.
 
A inscrição desta preciosa pedra, vim a saber mais tarde, é chamada O Código de Hamurabi, o nome de um rei da Babilônia que reinou dois mil anos antes de Cristo.
 
“Para evitar que os fortes defraudem os fracos. Para evitar que os violentos defraudem os pacíficos.”
 
Terá surgido, desde então, melhor definição de justiça?
 
 
O lado positivo da intolerância
A palavra intolerância veio a ser injustamente considerada repreensível por si mesma, algo que devemos evitar. Quando essa palavra é aplicada a um indivíduo, poucas pessoas sequer se detêm para considerar os méritos ou deméritos daquilo em relação a que a pessoa é acusada de intolerante.
 
Longe de termos intolerância demais, temos de menos. Porque, para termos coisas bem feitas, temos de ser intolerantes com o mal feito. Para termos saber, conhecimentos, temos de ser intolerantes com a ignorância. Para atingirmos o aprimoramento pessoal, temos de ser intolerantes com o vício, com o erro.
 
 
Poder de síntese
Li, não me recordo onde, que em Esparta, na Grécia antiga, os cidadãos eram estoicos, dotados de espírito militar e reconhecidos por sua economia de palavras.Diz a lenda que quando Filipe da Macedônia chegou às portas de Esparta, com suas tropas, enviou ao rei uma mensagem com os seguintes dizeres: “Se capturarmos a sua cidade, nós a incendiaremos até deixá-la em cinzas. Não restará pedra sobre pedra, nem sobrevivente que sirva de testemunha.”
 
A resposta do rei veio numa palavra apenas: “Se...”
 
 
Aposentadoria de professor
Só quem é ou foi professor pode avaliar quão árdua é a missão de educar gerações com linguagem e leitura de mundo muito diferentes daquele que leciona. Eu, particularmente, dei aula ao longo de quarenta anos, a mais de duas gerações; dialoguei com adolescentes e seus pais confusos.
 
O professor não interrompe a aula para um copo de água, uns passos descontraídos de cinco minutos no pátio, um telefonema para um amigo... É ali, no duro, cinquenta minutos ininterruptos, explica, explica, explica para ouvidos e almas distantes.
 
Lembro-me de ter estado no enterro de uma amiga e colega que lecionara durante muitos anos. O padre falou coisas muito bonitas sobre o seu caráter e terminou dizendo que ela estaria, provavelmente, naquele momento, continuando o seu trabalho no céu, lecionando para outras crianças e adolescentes.
 
Foi quando uma professora que estava ao meu lado murmurou ao meu ouvido:
 
- Nossa Senhora! Será que NUNCA vamos aposentar?
 
 
Numa rua em Ouro Preto
Calor na varanda de mais de trezentos anos. Quase ninguém nas ruas e calçadas. Sinos calados. Pássaros escondidos em grutas úmidas e refrescantes.
 
Súbito, ouço alguém que anuncia num misto de grito e lamento:
 
- Dodecô... Dodelê...
 
Busco imaginar o que seja. Uma senha? Um apelido? Uma brincadeira de rua?
 
E o lamento continua:
 
- Dodecô... Dodelê...
 
Levanto-me, debruço-me sobre a murada da sacada e vejo um velhinho negro, descalço, subindo a ladeira, vindo da Praça Tiradentes. Tem sobre a cabeça um tabuleiro de doces caseiros:
 
- Dodecô... Dodelê...
 
O calor era tanto, a subida era tamanha, tanto era o cansaço e a desesperança de vender ao menos um docezinho que o pobre diabo estava, na verdade, dizendo sincopadamente:
 
- Doce de coco... Doce de leite...
 
 
Uma do Vicente de Paula Silveira
Bom amigo. Saudades dele. Tinha sempre seus “causos”.
 
Disse que certa vez um homem muito, mas muito preguiçoso morreu. Deu-se o velório e seguiu-se o enterro.
 
Um bêbado, amigo do falecido, não se conformava. E para tentar despertar o amigo, disse:
 
- Acorda, Zé, acorda, o homem da venda quer lhe dar um saco de arroz...
 
O falecido teria lentamente se erguido do caixão e perguntado:
 
- Com casca ou sem casca?
 
- Com casca!
 
- Toca o enterro!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 

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