Meu avô Olinto aposentou-se pela Mogiana, como chefe de estação, e era descendente de índios. Pele morena, olhos miudinhos e bondosos, atentos ao interlocutor, alto para os padrões de estatura brasileira, e com a altivez de um cacique.
Nos anos 60 do século passado, a Tropicália surgiu como um movimento nacional: uma parafernália de roupas, de sons e sentidos, com valores surpreendentes para a época politizada que vivíamos (patrulhada pela esquerda radical, dona da verdade). Rita Lee, com um som metálico, misturado aos ritmos baianos de Gil e Caetano, e outros que buscavam um som nacional, antropofágico, sem purismos a restringir a criação artística: antecipavam a globalização iminente e não teorizavam - agiam, viviam. Em época de Ditadura Militar o revolucionário era definido pela sisudez de princípios, definidos pela adesão às armas e pelo “bom combate” contra o capitalismo.
A Tropicália, a princípio declarada nociva - pela direita e pela esquerda – não era classificável, mas as extremadas patrulhas concordavam, em princípio, que o movimento tropicalista não era sério, por um lado e, por outro, não era divertimento. Ninguém entendia a sua nova linguagem, chamavam de “desbundados” aquela trupe quase circense.
Ideias novas provocam ataques constantes dos conservadores, mesmo dos que se julgam, no discurso, vanguardistas.
Meu avô Olinto, quando anunciaram na TV o primeiro show dos tropicalistas, ficou para assisti-lo enquanto a grande maioria dos netos adolescentes foi dormir, xingando aquela turma que não rimava com os hinos da época “... porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente”; “Caminhando e cantando...”; “Carcará, pega, mata e come”.
Meu avô se manteve aberto às idéias, toda a sua vida. No café da manhã, posterior à apresentação dos tropicalistas, ele disse: “é um pessoal bonzinho”. Não descartava o que não conhecia, vício de quem busca eterna concordância com as próprias opiniões. Era homem nascido no século XIX, puritano e firme. Mas, era um ser maduro e tolerante com um mundo radicalmente diferente daquele em que acreditava.
Quase cinquenta anos depois, observamos transformações, aberturas de quase de 360 graus na moda, estilo de viver, relações amorosas, no convívio com o diferente: discurso-clichê hoje. Mas, se o discurso e a sua retórica remetem ao respeito às diferenças, à tolerância ao “adversário”, ao “inimigo”, ao antagonista, a prática dos embates entre grupos contrários ideologicamente traz uma atmosfera próxima à barbárie, cai facilmente o frágil verniz civilizatório.
Difícil a Democracia, horizonte a atingir: alguns à frente, outros a retardar a marcha. Na sociedade, diferentes graus de maturidade entre membros. Em boa porcentagem há, na sociedade contemporânea, os anti-sociais, perversos e psicopatas que votam (e alguns são votados!). Parece utópico almejar a construção de espaços democráticos. Mas não desanimemos.
Devo muito ao meu avô, Olinto, cujo nome significa “fruto verde”. Mitologicamente, Olinto era o filho de Hércules, que deu nome à cidade grega, o que amadurece cedo. Para mim, o que amadurece verde de espírito.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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