O flato é, inegavelmente, um fato. Um fato rotineiro, corriqueiro, banal. Um fato irreprimível, incontrolável e extremamente necessário. Quando ele vem, não há como segurá-lo para livrar-se dele no momento oportuno e lugares próprios. A sua contenção provoca dores abdominais, distúrbios digestivos, dores de cabeça, mau humor.
Apesar de ser um fato comum a todos, o flato emitido é sempre um flato negado. “Não fui eu” – diz sempre e peremptoriamente o emissor. O flato é como o ronco: todos negam a sua autoria.
Pela primeira vez eu ouvi, numa propaganda de televisão, um flato explícito, sonoro e sem vergonha. Tratava-se da campanha publicitária de uma rede de postos de gasolina em que um bebê ( masculino ) solta um pum e é logo repreendido pelo bebê feminino. A propaganda é engraçadíssima e serve para mostrar a generalidade, a necessidade e a liberalidade de um flato. Dos bebês aos velhinhos , o flato é uma realidade incontestável.
Apesar dessa realidade, o flato continua sendo considerado inoportuno e objeto das mais severas censuras. As mulheres, principalmente as mulheres, repreendem-no e sufocam-no com toda a força de sua natureza. Depois; depois ficam sofrendo de prisão de ventre.
Décadas atrás, estando eu num Congresso de Estudos Históricos em Lorena, fomos terminar a noite num barzinho espetacular da cidade. Nele serviam variados petiscos acompanhados de infindáveis batidas e caipirinhas da melhor qualidade. No fim da festa, fomos levar duas estudantes de História da PUC de Campinas até o seu alojamento. Eram duas moças lindas, muito bem vestidas ( como era normal na época ) e perfumadas. Ao entrarem no carro, uma delas soltou um pum monumental. Por alguns segundos, ficamos paralisados. Posteriormente, começamos a rir desbragadamente. No dia seguinte, ao irmos buscá-las para uma nova sessão do Congresso, elas tinham sumido e até hoje delas não tivemos nenhuma mínima notícia sequer.
O homem é um bicho mais esculachado e infenso a certas regras de comportamento social. Um grande amigo meu, após uma churrascada e cervejada, deitou-se numa rede para descansar. Em baixo da rede ciscava , calmamente, uma galinha com seus filhotes. Pois bem! Antes que entrasse num profundo cochilo, o meu amigo foi despertado por um estrondo e pelo escândalo da galinha que abria as asas para proteger os seus pintainhos.Assustado, o odor que o envolvia levou logo o meu amigo a perceber o que havia ocorrido.
Para terminar, não custa lembrarmos aquela velha piada em que o noivo conversava seriamente com o sogro em torno de uma mesa. Junto à cadeira do noivo, estava deitado um cachorro que era cutucado pelo rapaz toda vez que este soltava um pum silencioso que somente era percebido pelo mau cheiro exalado. Soltava e dizia:
- Sai, cachorro!
Irritado com a atitude hipócrita do noivo, o futuro sogro desabafou:
- Sai, cachorro! Sai depressa se não ele te caga em cima!
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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