Ela já não tem mais a mesma identidade. Para muitos, mas principalmente para as crianças matriculadas na rede pública municipal de ensino, Renata Gabriel Amatto é a Tia Letrinha, personagem que essa professora de 41 anos criou para si como seu alter ego na tarefa de ensinar, de contar histórias.
Ontem, Renata recebeu a reportagem do Comércio em sua casa, no estreito espaço de tempo entre dois períodos de um seminário que reuniu professores da rede. Sacrificou o almoço para contar como se realizou na profissão que acabou escolhendo por acaso, depois de cursar Pedagogia, por não conseguir pagar a faculdade de Fonoaudiologia que já fazia. Foi - como revelou - uma opção às cegas.
Hoje acha que fez a melhor troca que podia ter feito na vida. Renata está há 17 anos cuidando da tarefa de ensinar. Por achar que o livro é o instrumento que não apenas auxilia, mas dá forma ao aprendizado de crianças e adultos de qualquer época, acabou ela mesma correndo atrás da publicação de dois deles, um voltado às letras e outro, aos números. Ambos ilustrados pelo filho, Pedro de Pádua, 14.
Na claridade do meio-dia, Renata está confortável. Um problema na visão, pouco normal em sua idade, a tirou, seis meses atrás, das salas de aula. Hoje precisa recorrer a textos no computador em fonte tamanho 200 para poder ver o que está escrito.
“Achei que esse afastamento seria muito duro para mim. Parar de lecionar não era algo que eu imaginava, mas estou trabalhando muito bem, de forma a ajudar outros professores”, disse ela. A ajuda vem na reestruturação de bibliotecas nas escolas, que estão se tornando cada vez mais funcionais, como - acredita - são seus dois livros.
Novamente acha que acertou em cheio na troca. Deixou o ambiente fechado para que um mundo inteiro de fantasias pudesse se abrir para seus alunos, como contadora de histórias.
Para Renata, as crianças que formam seu público, com até 10 anos de idade, hoje cobram mais, são mais informadas e, por isso, obrigam o educador a buscar ferramentas que auxiliem na tarefa de ensinar.
Tia Letrinha entra literalmente em cena nesse momento. Coloca o avental com vogais e consoantes penduradas e a boneca criada de espuma, que em seu colo quase adquire vida própria.
É nessa transformação que a contadora de histórias começa a falar do cedilha, o primo distante que aparece só de vez em quando. As crianças interagem, questionam e colocam até os pais no meio da trama.
A viagem através da leitura é o projeto que levará Renata ao seu terceiro livro, e nada indica que para por aí. Tudo, segundo ela, depende da necessidade de ter mecanismos disponíveis para ajudar no processo educativo.
Ao explicar o que faz e como faz, Renata, travestida de Tia Letrinha, vai deixando um indisfarçável semblante de quem gosta do ofício, principalmente pela transformação que ele alcança na vida dos pequenos alunos.
“O que me encanta é a capacidade de transmitir o conhecimento de forma lúdica. A diferença entre uma criança que pega gosto pela leitura e outra que não lê está no maior repertório, no acesso a um vocabulário mais completo, mais aprimorado”, disse Renata. “Ela consegue fazer um paralelo com o mundo em que vive, vai criando hipóteses, buscando estratégias. Isso é conhecimento.”
Para a professora, tanto quanto para a personagem, a realização vem com o encantamento que cada história consegue despertar. “É como se ela sonhasse”, disse a Tia Letrinha.
Talvez por isso todos os meios sejam válidos, até os controversos aparelhos digitais que, acredita Renata, podem, sim, transformar-se em auxiliares importantes na formação educacional e no passo a passo do gosto literário.
E será que uma criança ou um adolescente que não leu tem alguma chance de chegar à fase adulta com gosto pelas letras, pelas páginas de um livro? Renata diz que depende. E depende, sobretudo, da maneira como foi motivado. “É comprovado que quem escreve um livro é porque ouviu histórias. É fundamental incentivar a criatividade, essa sensibilidade que a criança tem à flor da pele. Lendo, ela vai se encantar.”
O terceiro livro da professora Renata está no forno. Como os anteriores, será ilustrado pelo filho Pedro, um voraz consumidor de páginas e mais páginas. Como em qualquer obra literária, os custos de impressão não são pequenos. Está buscando - e acha que vai conseguir - recursos na própria rede de ensino de Franca.
“Fico feliz pelo sentido útil que a minha proposta adquiriu para as crianças e para os meus colegas de profissão”, finalizou.
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