Um mundo no circo; a vida dos artistas que vivem sem ter endereço fixo


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O público que assiste às piruetas, equilibrismos, malabarismos, palhaçadas e manobras radicais dos artistas do Circo Fantástico, que vem se apresentando em Franca desde o dia 26 de setembro, não consegue ver o “bairro” existente por trás da lona onde vivem cerca de 40 pessoas. Enquanto o sol ilumina os trailers, os membros das sete famílias da comunidade circense levam uma vida comum: Fazem serviço doméstico, vão à escola e cuidam da parte burocrática da empresa Circo Fantástico. Mas é quando a lua surge que a magia acontece. Donas de casa passam a fazer piruetas no ar, estudantes revelam seu corpo de elástico e pais de família pintam o rosto para fazer o público rir.
 
O Circo Fantástico foi fundado há cerca de 20 anos pelo palhaço, mágico, domador, trapezista e proprietário Mário Ferreira Cação, 63. Atualmente, ele já se aposentou das apresentações, mas colocou filhos e netos para substituí-lo no picadeiro.
 
Mário não nasceu em família circense. Aos oito anos ele se encantou por um circo que passava por sua cidade natal Lupionópolis, no interior do Paraná, e a trupe acabou lhe adotando. Depois disso, Mário nunca mais deixou a vida circense.
 
Foi também durante uma apresentação que ele conheceu sua mulher Diva Cação, 55. “Foi amor à primeira vista. Tive que ir conversar com toda família dela, mas eles não me aceitaram. Então nós fugimos”, contou Mário. Depois disso, o casal não se separou mais. “Nós passamos a nos apresentar juntos. Fazíamos um número com facas e eu já até acertei a faca nela nove vezes. Também já fui domador, tenho até essa cicatriz no tornozelo de quando uma onça me mordeu. Enfim, já fiz de tudo no circo, mas hoje deixo para os mais jovens se apresentarem”, disse o proprietário.
 
Para o casal, o trabalho no circo melhorou ao longo dos anos, apesar do aumento das exigências burocráticas. “Hoje é mais regulamentado. Mas você tem que ter CNPJ, alvará, licença, um monte de papelada. De Franca, nós vamos para Vila Velha, no Espírito Santo, e meu filho já está lá atrás da papelada”, contou Mário, que comentou também sobre a lei que proíbe animais nos espetáculos de circo. “Quanto aos felinos acabou sendo bom a proibição de apresentações com eles, pois eles exigiam muito cuidado. Era um boi por semana para alimentar todos eles. Já os cavalos, cachorros e macacos eu não concordei muito com a proibição pois eles já são domesticados.”
 
Dia a Dia
“Nossa casa é como uma outra qualquer, a única diferença é que ela tem rodas”, disse Diva. O trailer do casal possui um quarto, banheiro, cozinha, sala e até varanda. O veículo tem ainda armários, fogão, geladeira, televisão, ar condicionado e até uma lareira elétrica.
 
“Gosto de fazer o meu almoço e cuidar bem das minhas coisas. Nossos trailers também têm tudo. É uma casa mesmo”, comentou Diva. “O bom é que a gente cansa de uma lugar e pode ir embora. Não aguento ficar muito em um lugar só. A vida é boa. Eu brinco que quando você visita alguém de circo não pode beber o café, pois se beber não vai mais querer ir embora”, completou Mário.
 
No mês de dezembro, o Circo Fantástico faz um pausa nas apresentações e o casal Cação tira cerca de um mês de férias. O destino é Lupionópolis onde a família possui residência além de barracão onde são guardados todos os equipamentos e veículos.
 

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