Minha mulher e eu votamos no EETC. Fomos recebidos em uma das seções pela gentilíssima Aline Capel, do grupo de mesários, responsável pela organização dos votação e controle da documentação. De repente, a percebo em lágrimas. Tinha se emocionado com uma senhora, d. Leila, que acabara de votar e, também chorando, se retirou com o marido. Corri para alcançá-la. Contou-me que convive com dores de uma vértebra fraturada, as escadas que teve que subir para chegar à seção, o carinho de Aline e de outros que a ajudaram a se sentar e aguardar a vez de votar. Estava também emocionada por ter ido à urna, mesmo com a lei lhe facultando não ir. Disse-me que, ex-professora, nunca deixou de se informar, e, ‘apesar de não acreditar mais em quase nada e estar descrente de que políticos devolvam o país à ética’, pensou muito e foi cumprir o que chama de ‘obrigação cidadã de fazer diferença’.
Somei, na segunda-feira, votos dados em Franca a candidatos a deputado federal (18.467 a Adérmis Marini, 26.065 a Corrêa Neves Júnior, 2.386 a Cristiano Crico, 45.551 a Delegada Graciela, 28.329 a Dr. Ubiali): 120.798. Franca tem 228.827 eleitores. Pelo menos quanto a deputado federal, 108.029 eleitores votaram em candidatos de fora, ou anularam, ou votaram em branco, ou não foram às urnas. Tivessem, hipoteticamente, centrado decisões no fortalecimento da representatividade política local, poderiam Dr. Ubiali (que precisava de mais 12.475 votos), Delegada Graciela (mais 28.636 votos) e Corrêa Neves Júnior (mais 30.274 votos) ser, hoje, deputados federais. Não importa se apenas um, ou os três tivessem chegado, mas, repito, poderiam ter chegado os três. Faltaram apenas 71.385 votos dos 108.029. Ficamos sem representante em Brasília porque os eleitores assim quiseram. (Não vou repetir as contas para deputado estadual. Foram onze candidaturas, maioria absoluta apresentada por vaidade ou clara estratégia partidária para não permitir que o adversário se elegesse. Não há, então, o que comentar. Restou absolutamente claro que há políticos que se prestam a tudo, menos à ética. São os ‘soldados’ dos partidos.).
Fui a compras no domingo de manhã, dia da eleição, pensando no almoço com a família. No supermercado perguntei aos funcionários que encontrei se já tinham votado. Disseram que não, que iriam no intervalo do almoço ou mais tarde. Cutuquei: quem tem mais chances de se eleger deputado? Confabularam. A resposta me surpreendeu: ‘vamos votar só para presidente. Pra que tanto candidato? A gente se confunde ao apertar os botões, e demora. Melhor deixar para lá.’ Dois foram ainda mais objetivos: ‘não vamos. Vamos passear com a família’. Não os condeno. Lembrei-me imediatamente de Lula que plantou o ‘não sei de nada’. Como ídolo de tantos, ‘ensinou bem ensinado’ às pessoas que neste país você sempre pode sair pela tangente.
Tenho leitores contumazes. Sinalizam-me leitura desta coluna. É interessante. Quanto mais duro meu posicionamento menos comentários chegam por e-mail ou pelo falecomocomercio.com.br — o remetente tem que se identificar. Se o assunto é ameno, a relação se inverte. As pessoas de bem não querem se posicionar, seja por medo ou para não entrar em polêmicas, mas fazem falta: 108 mil eleitores sem rumo não se preocuparam com a cidade onde trabalham, ganham o sustento. Esse terço da população decidiu por nós todos que permanecemos calados! A culpa, então, é nossa, dos dois terços que permitiram! Perdemos o direito de reclamar, e não por maioria absoluta.
Sou do tempo em que família, escola e espiritualidade construíam homens de caráter. Acabou. Aqueles valores foram substituídos por redes sociais, ruas e amizades cuja única preocupação é o próprio umbigo. Tomara que d. Leila não desista nunca. Houvesse mais gente de seu quilate teríamos outra — e decente — história para contar. Quem sabe, daqui a dois anos...
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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