O corpo que a polícia não viu


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O relógio marcava 11h30 da última quarta-feira quanto saí da rodovia Cândido Portinari, na entrada de Ribeirão Preto. Usei a alça que dá acesso à rodovia Anhanguera. Meu destino era o Guarujá, onde permaneço até segunda-feira, com uma rápida passagem por São Paulo. Minha mulher, Milena, e meu filho, João, estavam comigo no carro. Os cinco dias de “folga” tinham sido programados para um necessário descanso depois da maratona eleitoral.
 
A quarta-feira estava clara, a temperatura quente. João estava ansioso porque seguíamos para a “paia”. Estávamos naquele trecho urbano da Anhanguera marcado por uma profusão de radares que forçam o motorista a limitar a velocidade a 90 km/h. Abruptamente, um Versailles vinho cruza pela nossa esquerda em alta velocidade. Instantes depois, o carro é lançado para a direita, à frente de um Uno adesivado com o nome de um Pet Shop. De repente, minha mulher grita. “Meu Deus, Junior. Jogaram uma mulher do carro.”
 
Atônito, vi o Uno numa manobra desesperada para desviar do corpo que rolava no rumo do acostamento. O motorista foi hábil e evitou uma tragédia. Encostei imediatamente. O motorista do Uno veio em minha direção. “O senhor socorre a moça que eu vou atrás do Versailles. Vou anotar a placa”, disse o rapaz. Assenti e recomendei  a ele que tomasse cuidado. Imediatamente, Milena pegou o celular para ligar para a Polícia. Eram 11h40, conforme indica o registro de chamadas do celular.
 
Encontrei a mulher cambaleando no acostamento. Loira, estatura mediana, apresentava múltiplas escoriações. Estava ensanguentada. Tinha ferimentos nos pés, pernas, ombro, cabeça. Amparei-a e levei até a mureta da pista. Ela chorava muito, soluçava, reclamava de dor. Perguntei seu nome e o que tinha acontecido.
 
“Fátima, moço. Meu nome é Fátima. Sou garota de programa. Dois caras acabaram de pegar eu e minha amiga na avenida Brasil. Combinaram de levar a gente no motel. Mas, de repente, pegaram a rodovia... Perguntei onde estavam levando a gente. Um deles puxou uma arma e disse que era um assalto. Fiquei com medo dele me matar... Abri a porta, joguei minha bolsa e pulei”, explicou. Perguntei da amiga. “Ficou no carro, moço. Ficou no carro”, disse, soluçando, ao mesmo tempo em que queria sair e procurar a tal bolsa. “O dinheiro que eu tenho que mandar para minha família está lá”, berrava. As dores a impediram. Insisti para que se acalmasse até que a Polícia chegasse.
 
Poucos minutos depois, chegou uma viatura da Autovias. O rapaz repetiu as mesmas perguntas para a mulher. Pediu calma. Acionou alguém por rádio. Milena, que tinha ficado no carro com nosso filho, se aproximou e confirmou que tinha falado com a Polícia. Não foi fácil. Três ligações para o 190 entre 11h40 e 11h43. As duas primeiras, atendidas por homens. A última, por uma mulher. Numa das chamadas, a atendente chegou a recomendar que ligássemos para a Polícia Rodoviária. É o fim do mundo. A polícia, diante de uma situação grave, diz que o assunto não é com ela. E, por mais ridículo que seja, transfere de volta a responsabilidade para quem está tentando ajudar.
 
Enquanto isso, chegou a segunda viatura da Autovias. Desta vez, a unidade de resgate, com médicos e paramédicos. Atendimento extremamente profissional e rápido. Colocaram o equipamento para imobilizar o pescoço, deitaram a mulher numa maca, fizeram perguntas básicas e deram a sequência ao atendimento. Ouviram de Fátima a mesma história que ela já havia contado a mim. Expliquei ao pessoal da Autovias que ela tinha pulado do carro certamente a mais de 100 km/h. Todos concordaram que era um milagre estar viva. Perguntei para onde Fátima seria levada. “Para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento)”, respondeu uma jovem que fazia parte da equipe.
 
Fátima continuava chorando. Acompanhei-a até a porta da unidade de resgate. Ela agradeceu muito. “Que Deus te abençoe, moço”. Disse a ela que por alguma razão ela continuava viva mesmo depois de uma situação tão perigosa. E que usasse sua vida a partir de agora apenas para bons propósitos.
 
A Unidade de Resgate saiu rapidamente com Fátima. Fiquei com minha mulher e meu filho enquanto o sujeito da primeira viatura da Autovias seguia procurando a bolsa da Fátima. Perguntei a ele se poderia ir embora. “Não. A Polícia está vindo para cá e pediu para o senhor esperar”, respondeu.
 
Esperei. Esperei tanto que deu tempo do rapaz do Uno voltar e me encontrar. Havia falhado na perseguição. Me perguntou mais detalhes, contei o que tinha ouvido da Fátima. Ele ainda estava muito assustado. “Foi por um triz que não passei em cima dela”, dizia, igualmente estupefato. Despediu-se e foi embora.
 
Às 12h10, perdi a paciência. Liguei na rádio Difusora e fiz um flash, narrando o que tinha acabado de presenciar. Falei ao vivo, do local dos acontecimentos. Terminei, esperei mais um pouco. Às 12h20, o rapaz da primeira viatura da Autovias veio até nós. A Polícia tinha desistido de falar conosco. Ele agradeceu nossa ajuda e desejou boa viagem. Deixei com ele meu telefone caso precisassem de informações. Até agora, ninguém me ligou.
 
Seguimos viagem para o Guarujá, preocupados com Fátima e com situações absurdas como a que tínhamos acabado de vivenciar. No dia seguinte, li no portal GCN que nenhuma autoridade sabia informar o que tinha acontecido. Polícia Civil, Militar, Autovias, Polícia Rodoviária não se entendiam. Ou não tinham registrado a ocorrência ou diziam que se tratava de “desavença por conta de preço de um programa sexual”.
 
Há muita gente louca no mundo. Ainda assim, acho bem pouco provável que uma mulher se jogue de um carro a mais de 100 km/h no meio de uma rodovia por discordar dos termos de um “programa”. Há jeitos mais simples e muito menos perigosos de resolver isso. Para alguém fazer o que Fátima fez, tem que estar muito assustada. Tem que achar que vai morrer. Caso contrário, não se atira no meio de uma rodovia.
 
De tudo, fica a absoluta sensação de que estamos entregues à nossa própria sorte. Afinal, a Polícia Militar, quando acionada por uma razão qualquer, ainda mais uma do tipo que aconteceu conosco, não tem como contatar quem de direito imediatamente e coordenar a ação? A Polícia Civil não deveria se dirigir imediatamente ao local dos fatos e colher informações com as testemunhas? Ainda que tenha sido ato de loucura da tal de Fátima, o que não acredito nem de longe, o tal Versailles não teria que ser parado por alguém para fornecer esclarecimentos? Polícias Civil, Militar, Rodoviária e Autovias não conversam entre si? O que nossas forças policiais recomendam a alguém que testemunha um episódio como aconteceu conosco? Que deixe a vítima e vá embora sem prestar socorro? 
 
É tudo insano demais. Se a Polícia não consegue reagir diante de um caso desses, à luz do dia e no interior de São Paulo, o que dizer do combate à violência nos rincões deste país? Obviamente, é cada um por si. E que Deus olhe por todos nós. Porque se for depender do aparato de segurança do Estado, o melhor a fazer é começar a rezar.
 
Nota da Redação 
Depois de dois dias de tentativas e insistência junto às autoridades de Ribeirão Preto, a reportagem descobriu que a ocorrência envolvendo Fátima foi registrada como Lesão Corporal. O registro foi feito na UPA XIII de Maio, local onde Fátima foi levada pela Polícia Rodoviária. Agora, o Boletim de Ocorrência será encaminhado para a Polícia Civil, que investigará o caso.
 
 
Corrêa Neves Júnior 
Editor do Comércio 

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