noite de cumprimento


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teria de ser naquela noite. depois de todos os presságios, mensagens ou delírios, era inadiável que a coisa acontecesse. era certamente o enviado, capaz de superar os medos e deixar que o desejo instintivo, juntamente com a razão, consumasse o ato.
 
o ritual de purificação era totalmente necessário, para o seguimento dos destinos.
 
colocou a arma, as algemas e afins nos bolsos internos do paletó e ganhou seu destino.
 
aguardou pacientemente o fim do culto. perambulou discretamente pelas entradas dos templos, de uma rua a outra, imaginando como seria e quem seria.
 
a proximidade entre um e outro prédio de diferentes crenças e a coincidência de horário para as funções de cada um davam um toque inusitado à situação. enquanto os sinos repicavam de um lado e a boca do prédio vomitava fiéis, do outro, também em término de culto, fios de pessoas se libertavam para o ar molhado da noite determinada.
 
logo as duas concentrações de pessoas se misturavam, e as ruas adjacentes engoliam os grupos, que iam se transformando em bandos, pares, até se dispersarem totalmente.
 
concentrou-se no casal que parecia ser apropriado. pode sentir o cheiro de sabonete barato feminino e da loção ordinária do condenado, quando passaram por ele, como se fosse invisível.
 
seguiu-os pacientemente. quando dobraram mais uma esquina, com passos lentos e bolinações naturais, sabia que o momento havia chegado. a rua era perfeita, silenciosa e vazia. 
 
ao pararem ao lado do carro, o rapaz abraçou a parceira, colando a boca sôfrega nos lábios também pedintes.
 
foi o momento adequado para Ludinei. arrancou a arma do paletó e, num gesto cirúrgico, colou-a na nuca do namorado, dizendo educadamente para terem calma, era apenas um assalto. 
 
ela ameaçou um choro, logo contido pela voz insinuante do assaltante, que, com muito carinho, ameaçava ferir o namorado se ela não se calasse. com muita educação, orientou a moça, para que algemasse o parceiro.
 
com os dois imobilizados e de bocas lacradas, tomou a direção e, poucos quarteirões depois, adentrou um terreno ermo, previamente estudado.
 
sua excitação aumentava à medida que constatava o terror nos olhos da moça. arrancou-os polidamente do carro. o rapaz de olhos amendoados permanecia em transe, não esboçava reação alguma. o cheiro da lavanda misturado ao do sabonete produzia uma química excitante e descontrolada em Ludinei.
 
contudo, sequer tocou em nenhum deles. obrigou a moça a despir o rapaz. em seguida ela. dois nus sob a claridade tênue. era a imagem perfeita que precisava. focou os olhos nos olhos dela e disparou silenciosamente no meio da testa do rapaz.
 
captou todos os detalhes da reação feminina. amou aquele instante de sofrimento como nunca amara qualquer outra situação. a excitação arrombou seus sentidos. os olhos de terror e os gemidos abafados, mais e mais o estimulavam. ao constatar que o desejo começava ser mais forte que o próprio controle, disparou também entre os olhos tristes e aterrorizados, estancando o descontrole iminente.
 
os dois corpos nus e inertes mais ainda o molestavam. desviou o olhar, arrancou do bolso as velas brancas, plantando-as, uma ao lado da outra, acima da cabeça de cada cadáver. acendeu-as e foi embora.
 
debaixo do chuveiro, totalmente concentrado nos olhos vidrados de terror, com a imagem dos corpos rijos e nus cravada definitivamente no arquivo de sua lucidez canônica, masturbou-se seguidas vezes, expulsando os demônios a cada ejaculada, até exaurir todos os possíveis remorsos, na certeza de missão cumprida.
 
totalmente apaziguado, ligou para a noiva e confirmou o almoço do dia seguinte com a família.
 
 
Mirto Felipim, poeta, observador, escritor.

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