A fila


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Não tinha muita gente à frente, na fila. Talvez uns cinco ou seis. Bem na minha frente uma senhora, talvez da mesma idade que a minha, negra, com manchas de pele semelhantes às minhas, e expressão cansada, entediada seria a palavra mais exata. 
 
Eu poderia não conversar, mas puxei assunto. Confesso que conversei mais com as pessoas nas ruas, lojas, táxis, do que vi os debates dos candidatos políticos na TV. Queria ouvir os que nem sempre são ouvidos. 
 
Perguntei à senhora se a fila estava demorando para andar, e ela respondeu que não. E emendou: pior que a gente sai de casa, vem até aqui, vota, e não vai adiantar nada, nada vai mudar.
 
Devo ter sorrido amarelo, afinal, esse desânimo não é só dela. E digo que talvez a gente esteja apenas aprendendo um pouco sobre democracia, que ainda votamos pouco, na história do Brasil. 
 
E ela me olha, um pouco mais interessada, dizendo que os candidatos em que ela votou na última eleição não fizeram nada do que prometeram. E eu, um pouco mais animada, até querendo animá-la, não sei bem o motivo, digo que precisávamos nos preparar para uma verdadeira democracia, com uma verdadeira oposição, coisa que não temos tido. Um verdadeiro debate de posições em que as ideias pudessem ficar mais claras e representassem melhor as necessidades das pessoas. 
 
A fila anda bastante e estamos, ela primeiro e eu depois, quase na porta de entrada da sala. Ela, então, me diz, só o racismo está aparecendo mais. Todo mundo, agora, grita o racismo. Eu pergunto piorou? Uma pergunta retórica, já que imaginava a resposta óbvia dela: não, sempre foi assim, era mais escondido. 
 
E o senhor, à porta, já pedia a ela os documentos e nos preparamos para nos despedir. Desejei a ela um bom voto. Não perguntei, não perguntaria nunca em quem ela iria votar, nem revelaria o meu voto, se ela me perguntasse. Mas, ali, à beira da porta, pensei nas necessidades sociais dos membros de um país tão grande como o nosso. Guardei a triste fisionomia daquela cidadã e o seu clamor racial. 
 
Meu avô não dizia a ninguém do seu voto, nem à minha avó. Voto é secreto, dizia, e ratificava o segredo do seu. Procuro escutar, ponderar, e me deixar em dúvida o máximo que posso, esticando minhas reflexões. A minha ágora é pequenina: alguns amigos, meu pequeno núcleo familiar, onde trocamos informações sobre nossas ideias e anseios, e vamos articulando mais uma re-visão do Brasil e do seu futuro: aproveito para pensar melhor a sua história, desvios e acertos, passados e presentes. 
 
A cada votação, no Coronel, ao rodear as varandas do grande pátio e subir os degraus para a minha seção, vou recordando as esperanças que moveram minhas escolhas no páreo anterior. Entendo bem a tristeza daquela mulher: talvez a encontre no segundo turno, talvez só na próxima votação. O que diremos uma à outra? 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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