Marília fala muito e muito bem, é difícil alguém conseguir falar assim. Ela é uma macaquinha bem magra, ágil e muitíssimo engraçada. Seu entusiasmo com as palavras é fascinante, não há no mundo o que não esteja ao seu alcance. Com ela o tempo sempre está bom, ela tem o dia ensolarado nos olhos.
É a macaca mais rica da floresta, apesar da pouca idade, e o que a faz rica são os inúmeros amigos que ela coleciona. Não contaria seus amigos nem nos dedos de dez patas de macacos. Vai longe para bem mais de cem, tanto bem querer e amizade.
Ela devia mesmo é chamar-se Alegria em vez de Marília, pois contagia com tanta falação, barulho, som e vida.
Teve um dia que aconteceu algo chato, foi alguém, que nem deu para ver quem, que gritou:
-Fique quieta, Marília, ao menos cinco minutinhos!
O tom da voz era exausto e machucou a macaquinha. Ela ficou profundamente magoada. Parecia que estava tão pequena quanto a ponta quebrada de um lápis colorido, sentiu-se mergulhar para dentro de si mesma.
Ela começou a engolir uma a uma as palavras; engoliu cada argumento e cada resposta que pensou em dar. As palavras continuavam a escorrer do seu corpo todo para a ponta da língua e ela engolia letra por letra, vírgula por vírgula, som por som. Vez por outra um engasgo.
Usou as mãozinhas e tapou a boca. Fez imensa força para segurar desaforos, risadas altas, gargalhadas e outras tagarelices. Foi quando, de repente escutaram um grande barulho. Parecia som de trovão vindo de dentro da barriga. Palavra engolida estava dando indigestão!
Até que então, assim sem querer, a macaquinha fez um PUM...
Ela caiu na gargalhada, achou a coisa mais engraçada que já tinha lhe acontecido na vida. Era um PUM de letrinhas desarranjadas.
Marília voltou a falar, falar muito sabe que coisa engolida a força faz é muito mal, porém agora ela sabe que tem hora que o cansaço é áspero e o silêncio apenas necessário.
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