‘Só quero sentir minha mãe pela última vez’, diz Iraci, que é cego


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Isaías Vinícius Silva Araújo abraça o pai Iraci Araújo em frente a casa deles, que tem uma placa fixada no portão pedindo ajuda
Isaías Vinícius Silva Araújo abraça o pai Iraci Araújo em frente a casa deles, que tem uma placa fixada no portão pedindo ajuda
No caminho de Iraci José de Araújo não há espaço para a tristeza nem para as limitações impostas pela vida. Aos 54 anos e deficiente visual, ele vive feliz com um dos seus três filhos em uma casa simples, mas aconchegante no bairro Santa Terezinha, onde realiza com maestria todas as tarefas domésticas. Com um sorriso no rosto e sempre fazendo questão de ressaltar o quanto é feliz, Iraci fica com os olhos marejados ao falar sobre sua vida e, principalmente, sobre os seus filhos. As lágrimas, de alegria, só surgem quando o assunto é a vontade de “sentir” sua mãe, que mora no Mato Grosso. 
 
Como sobrevive com um salário mínimo e a boa vontade das pessoas, Iraci não tem condições de arcar com as despesas da viagem até Campinápolis. Mesmo assim ele não desanima e já sonha com o abraço que dará em sua mãe ao reencontrá-la. Emerinda Ferreira da Silva, mais conhecida como Adelina, é idosa, está doente e não pode viajar até Franca para visitá-lo. Eles se encontraram pela última vez há mais de um ano. “Quero sentir a minha mãe pela última vez. Eu sei, sinto, que será a última vez. Ela completa 87 anos no próximo dia 10 e também está muito doente. Assim que chegar lá quero dar um abraço bem apertado e falar para ela o tanto que eu a amo. Estou tão ansioso que até sonho que estou chegando lá.”
 
Para o sonho ser completo, Iraci quer que seus filhos Isaías Vinícius Silva Araújo, de 11 anos, e Ivana Cristina Silva Araújo, de 8, o acompanhem na viagem de despedida. Ele calcula que os gastos ficarão em torno de R$ 1,5 mil para os três. Honesto, ele faz questão de ressaltar que este valor é para arcar com as passagens e que a alimentação para os três durante os dias de viagem será preparada por ele mesmo em sua casa antes da viagem.
 
“Se eu sair daqui hoje ao meio dia, chego lá amanhã às 11 da manhã. Só que a Ivana e o Isaías também querem ir. A minha filha disse que quer ir porque sabe que a avó dela não vai dar conta de vir aqui e ela também quer se despedir dela.” Iraci pretende embarcar de ônibus de Franca para Goiânia, depois tomar outro para Nova Xavantina. Chegando em Nova Xavantina, seguirão para Campinápolis. “Esta é a chance que eu tenho de rever minha mãe. Comida dá para fazer em casa e levar. Sei que para as pessoas ajudar a gente elas tiram delas mesmas porque têm o coração bom.”
 
Perseverança
A confiança é forte aliada de Iraci. Com brilho nos olhos ele fala sobre a viagem como se ela já estivesse marcada, mas ao mesmo tempo, com os pés no chão, sabe que só conseguirão realizá-la com ajuda. “Precisaria de uma ajuda financeira. Um pouquinho de um e de outro. Quem quiser vir aqui em casa as portas estão abertas. Pode passar meu celular se alguém quiser comunicar comigo. Se alguém que acha que pode me ajudar quiser vir me conhecer e conhecer onde eu vivo e como eu vivo, ficarei muito feliz.”
 
Na porta de sua casa, aliás, Iraci mantém uma plaquinha dependurada com os dizeres “Ajude um deficiente visual” e seu telefone embaixo, com a expectativa de conseguir ajuda.
 
Deficiência
Iraci vê apenas luzes e vultos, mas quem o conhece pessoalmente costuma dizer que ele enxerga mais do que muitas pessoas que não possuem qualquer problema de visão. 
 
Há 20 anos, Iraci “enxerga” com o coração. A deficiência, causada por uma retinose pigmentar, surgiu na infância e foi piorando com o passar do tempo. “Antes eu tinha problema, mas não era tão complicado assim. Mesmo com a deficiência sou muito feliz e me considero mais que um vencedor. O médico já tinha me dito que com o tempo a visão ia diminuir. Hoje sei que sou um homem que não posso pegar nem em uma enxada para carpir um terreno, mas nem por isso eu sou infeliz.”
 
Família 
Iraci é goiano, mas mora em Franca há quase três décadas. Ele se casou, mas a união chegou ao fim há três anos. Como fruto e boas lembranças do relacionamento ficaram os três filhos, dois biológicos e um, de 12 anos, filho apenas de sua ex-mulher, mas para ele não há distinção entre eles. “Tenho três filhos, o Isaías, a Ivana e o Marcos, que é especial. Ele na verdade é meu enteado, mas nem gosto de falar assim e ele também não gosta. Ele é meu filho como os outros. Ele não mora comigo, mas depende de mim em muitas coisas. A Ivana também mora com a mãe, mas sai da escola e vem aqui para minha casa e fica até a mãe chegar do serviço.”
 
O grande companheiro de Iraci atende pelo nome de Isaías. O menino demonstra a todo momento o carinho e o respeito que tem pelo pai. Basta Iraci assoviar que logo aparece Isaías perguntando o que o pai deseja. Eles “saíram” de casa juntos e juntos querem permanecer pelo resto de suas vidas. “Saímos com um saquinho de roupas nas costas. Quando eu e a mãe dele nos separamos, ele disse que não me largava. A minha ex-mulher disse então que não o tiraria de mim se não ele poderia até ficar doente. Ele não tinha nem seis anos e agora está com 11 e do meu lado até hoje.”
 
Aposentado, Iraci utiliza o dinheiro que recebe para pagar o aluguel, a pensão da filha e com o restante faz malabarismos para não deixar faltar comida em casa. O preparo das refeições, a limpeza da casa e a lavagem das roupas são tarefas que ele realiza diariamente. “Sou aposentado, ganho pouco para pagar R$ 280 de aluguel e R$ 220 de pensão da minha filha. Mas é o mínimo que um pai pode fazer porque os filhos são os que mais sofrem com a separação. Qualquer filho quer o pai e a mãe juntos. Às vezes não é nem uma boa mãe e nem um bom pai, mas os filhos querem mesmo assim o apoio deles. Meus filhos, depois de Deus, são a alegria da minha vida.”

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