Aos 23 anos a professora aposentada Marilda Helena Rodrigues Souza conquistou sua CNH (Carteira Nacional de Habilitação), mas somente aos 40 teve coragem de encarar o trânsito sozinha. A manicure Maria Aparecida Pereira se habilitou aos 22, mas também só conseguiu tomar a frente do volante anos mais tarde, aos 27 anos. Histórias como as das duas não são uma exceção. Um trauma vivenciado, anos sem prática e até mesmo o medo inconsciente da autonomia são fatores comuns que levam pessoas habilitadas a desenvolverem o medo pela direção de um veículo.
Segundo o psicanalista Antônio César Peron, esse medo geralmente não é isolado e se associa a outros aspectos da personalidade, como a insegurança de ter que tomar sozinho uma decisão. “Já lidei com casos desse tipo em meu consultório. O que se observa é que muitas vezes a pessoa tem dificuldade de lidar com a própria autonomia e isso pode se refletir no ato de dirigir. Mas também já tive paciente que desenvolveu o medo por ter vivenciado algum acidente de carro.”
Segundo relatos de autoescolas ouvidas pelo Comércio em Franca, o serviço de instrução a pessoas que já provaram ao Detran (Departamento de Trânsito) sua capacidade de conduzir um veículo possui uma boa demanda, embora nenhuma tenha pronunciado números. “Esse serviço sempre existiu, mas, de uns meses para cá, observamos que ele merecia mais atenção e começamos um trabalho de divulgação”, disse o diretor da Guarany, Sebastião Felicíssimo.
Ainda de acordo com ele, embora haja homens neste seu universo de alunos, a presença feminina é marcante. “Geralmente nos procuram mulheres entre 25 e 35 anos que não tiveram coragem de dirigir após conseguirem a habilitação ou não possuíam carro e, por isso, não praticaram.”
As autoescolas Bandeirantes e União também são mais procuradas por mulheres motoristas e na mesma faixa etária que querem vencer o medo de enfrentar o volante de um carro. Para eles, neste processo, o principal é detectar as principais inseguranças e trabalhá-las nas aulas. “Muitas têm medo do trânsito, outras de atropelar alguém e há ainda o medo da rodovia. O importante é saber qual a insegurança e focar nela. Há aulas em que passamos a maior parte do tempo na rodovia, outras, rodando no Centro em meio ao grande fluxo de carros”, disse o instrutor Peterson de Freitas Foturnato. “Cada aluno tem seu tempo e não tem como definir um número exato de aulas para que ele possa perder o medo. Geralmente, temos uma variação de quatro a dez aulas”, afirmou Bruno Basilio Fressa, instrutor da União.
Superação
Hoje com 54 anos, a professora aposentada Marilda Helena fala com tranquilidade dos quase 20 anos em que, mesmo possuindo habilitação e carro, se viu dependente da agenda do marido para se deslocar e cumprir seus compromissos sem recorrer a transportes alternativos. “Eu tinha que adequar os meus horários aos do meu marido e muitas vezes deixava de fazer uma série de coisas por esse motivo. Me sentia humilhada ao ver tantas pessoas dirigindo e eu, mesmo tendo possibilidade, não conseguindo”, relatou. “Precisei de novas aulas de direção e muito apoio para perder o medo. Minhas filhas deixavam bilhetinhos de incentivo para eu dirigir; na escola onde trabalhava o pessoal prestava apoio e fui me motivando. Pegar o carro pela primeira vez sozinha me deu a sensação de liberdade. Me senti mais valorizada e independente.”
Para a manicure Maria Aparecida, que está com 37 anos, o resultado de enfrentar o medo e ganhar as ruas foi igualmente libertador. “Eu não tinha carro quando tirei a carta, então pagava algumas aulas para poder treinar. Mas mesmo quando comprei o carro, tive muito medo. Olhava para ele (carro) parado na garagem da minha casa e me perguntava chorando: o que é que eu vou fazer com isso?”.
Maria contou com apoio e incentivo de uma amiga para superar o medo. “Ela via a minha insegurança e nervosismo só de pensar em dirigir o carro. Um dia ela me colocou dentro dele e me fez encarar o medo. Deu certo”, relembra. “Hoje, dirijo até van e blazer”, concluiu, orgulhosa.
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