‘Nossa tarefa não tem a ver, necessariamente, com o desejo de ser governador’


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Wagner Farias, candidato a governador do Estado de São Paulo pelo PCB, é entrevistado pelos jornalistas do GCN: ‘É necessário desmercantilizar a vida, tirar o lucro da prioridade das relações’
Wagner Farias, candidato a governador do Estado de São Paulo pelo PCB, é entrevistado pelos jornalistas do GCN: ‘É necessário desmercantilizar a vida, tirar o lucro da prioridade das relações’
Wagner Farias foi o entrevistado da série de sabatinas do GCN do último dia 26, sexta-feira. O candidato a governo do Estado de São Paulo pelo PCB defende que os serviços essenciais como saúde sejam estatais, também defende que as escolas sejam 100% públicas. Wagner  é a favor da legalização das drogas e considera “desnecessária” a sobretaxação proposta pelo governo do Estado para consumidores que “abusarem” do consumo de água nesse período de crise hídrica. O candidato, inclusive, fez  críticas  à gestão de Geraldo Alckmin e disse que o único acerto do governador “será no momento em que ele renunciar”. 
 
Por que o senhor quer ser governador de São Paulo?
A nossa tarefa não tem a ver necessariamente com o desejo de ser governador, mas com o desejo de que seja possível realizar um processo de transformações profundas e radicais na nossa sociedade. Acreditamos que, hoje, tanto o Estado de São Paulo, como o governo federal, por exemplo, se organizam e se orientam na perspectiva da lógica dos grupos, dos bancos, das construtoras. Achamos que é necessário inverter essa lógica. Desmercantilizar a vida, tirar o lucro da prioridade das relações e investimentos do Estado e colocar a população como fim e como princípio.
 
Se o senhor não deseja ser governador, por que o eleitor deve votar no senhor?
Em primeiro lugar, a gente não acredita que essas transformações profundas, hoje, sejam possíveis por meio desse processo eleitoral. Cada vez mais o processo eleitoral tem sido restritivo. Poucos são os espaços onde a gente tem conseguido participar de um debate programático, de forma igual. Tem toda uma estrutura no sistema político, no sistema judiciário, que impediria algum processo de transformação mais profundo. Nossa candidatura para além de pedir voto, tem muito mais um interesse de fazer um debate político de trazer à população os temas que acreditamos que sejam fundamentais de serem discutidos com a população. Não temos nenhum problema em assumir que a nossa candidatura chega a ser uma anti-candidatura, porque para nós é mais do que uma campanha, é um movimento.
 
Se não for por meio do processo eleitoral, por que meios se darão essas transformações? O senhor não acha que é injusto com o eleitor, usar o processo eleitoral que você critica tanto, para também expor suas ideias?
Para nós, o que é injusto é um processo eleitoral, como o que vivemos, ter 9 candidatos e a população só conhecer 3. O que é injusto é você pegar a forma de financiamento de campanha. Três principais candidaturas têm um orçamento em torno de R$90 a R$95 milhões e alguns dos candidatos têm, como principais doadoras, empresas que estão em sistemas de denúncias sobre desvios de recursos públicos em relação a concessões. Para nós, a campanha tem de ser utilizada como debate político. Agora, votar no PCB é importante? É importante por um aspecto: aponta a concordância da população para os eixos programáticos que a gente tem defendido.
 
Sua campanha declarou à Justiça Eleitoral o teto de gastos de R$ 100 mil e isso é muito menos que os demais candidatos. Como é possível estruturar uma campanha com tão poucos recursos?
É muito difícil, é uma competição extremamente desigual. Temos o teto de gastos em R$ 100 mil, mas vamos terminar a campanha com algo muito abaixo desse valor. Nossa campanha, por outro lado, tem um aspecto que é muito diferenciado das demais. Por exemplo, nós não temos assessoria profissional, não temos militantes contratados, não temos marketeiros, não orientamos nosso debate político através de pesquisas de consumo. Para nós, o processo eleitoral não é a venda de um produto, de um sabonete, e sim um processo que temos que aproveitar para debater com a população, com a classe trabalhadora, o porquê da situação do nosso país, do nosso estado não melhorar, o porquê cada vez mais, existem poucas pessoas que concentram riqueza, enquanto outra parcela da população, cada vez maior, vive em condições precárias, ou até subumanas.
 
As pesquisas de intenção de votos indicam que o senhor não alcança 1%. Isso não pode significar que a classe trabalhadora não compactua com as ideias de vocês?
Poderia, se não fosse pelo fato da nossa candidatura também ter o menor índice de rejeição de todas as demais candidaturas. Isso é uma prova de que não é que a população rejeita nossas propostas, é que a população não conhece nossas propostas. Aí remonta o debate inicial, a grande mídia, o abuso do poder econômico garantem a visibilidade de algumas candidaturas. E esse poder econômico que fica atrelado a empresas que não fazem doação, fazem financiamento e a prova é essa quantidade de escândalos que envolvem empresas das principais campanhas que depois, nos processos de concessão de obras públicas, esses investimentos retornam para essas empresas. Agora, nosso problema é a falta de visibilidade e a gente tem utilizado todas as estratégias que estão ao nosso alcance para tornar nossas propostas conhecidas.
 
Uma de suas principais propostas é a construção do que o senhor chama de “poder popular”. Na prática, como funcionaria esse poder popular?
Primeiro, para construir o poder popular, não dá para se construir por decreto. Isso é um conjunto de ações que tem como objetivo trazer a população a exercitar a democracia direta. Acreditamos que a estrutura dos três poderes não é suficiente, ou pior, se coloca no sentido contrário do desejo da maioria. Temos defendido que é necessário investir na participação direta da população através de conselhos que atuem em cada setor da política. Conselhos populares da educação, habitação, segurança pública, saúde. O PT veio com uma proposta de conselhos para participar da política, mas eles teriam o caráter representativo, nós queremos que os conselhos tenham participação na deliberação das questões, não apenas consultas. A população vai lá, discute questões que geralmente são marginais e não tem nenhuma garantia que o resultado final desse debate seja encaminhado.
 
Pelo mundo afora, há vários modelos socialistas que não deram certo. A Rússia, a China que está virando uma economia popular, Cuba que vive uma situação difícil, justamente por não abrir sua economia. Por que o eleitor deve acreditar que esse é o modelo certo para o Brasil?
Cuba tem dificuldade não é só porque não quer abrir sua economia, existe um bloqueio dirigido pelos EUA contra Cuba há mais de 50 anos, existem vários outros motivos. No entanto, entendemos que as experiências socialistas no mundo, como bem você colocou, só foram experiências. Tivemos pontos de acerto e tiveram pontos problemáticos, inclusive que levaram a volta do capitalismo, como por exemplo, na ex-URSS. Não defendemos nenhum modelo específico, o que defendemos é a possibilidade de construção de uma sociedade socialista brasileira. Não pode a grande massa da classe trabalhadora produzir riqueza e não ter direito sequer a condições de vida minimamente garantidas. Defendemos os pressupostos fundamentais, a socialização dos meios de produção vitais à população, o controle social sobre o Estado e isso, que possa levar em algum momento, conduzir a uma sociedade auto-gerida, auto-gestionada.
 
E como isso se daria? Que caminho é esse? Seria no acerto e erro, ou vocês já têm uma proposta de socialismo brasileiro?
Em primeiro lugar, a proposta do socialismo brasileiro, do socialismo realizado no nosso país, tem que passar por alguns elementos que são fundamentais. É impossível falar em distribuição de riqueza, com um sistema financeiro privatizado. O sistema financeiro que não seja controlado pela população e pelo Estado. Defendemos coisas como a estatização do sistema financeiro e bancário, defendemos que saúde, educação, moradia, são direitos fundamentais com garantias que não devem ser tratadas como mercadorias.
 
Para a segurança pública, sua principal proposta é a dissolução da PM. Na prática, o que isso representaria?
Isso significaria que nós entraríamos, pelo menos, no patamar da maior parte dos países do mundo, onde o trabalho de segurança ostensiva da população não é feito por polícias militares. A PM no Brasil é uma herança direta da ditadura e do período mais duro do regime militar no Brasil, que é o período do AI-5. Ela tem como formação a política de uma força armada que trata a população como um problema relacionado à violência, como algo que precisa ser aniquilado. Então, nós defendemos a dissolução da corporação para a constituição de um novo corpo de segurança civil, de caráter comunitário. Onde os policiais da PM passariam por uma triagem antes de serem readequados em uma nova estrutura de segurança, em que a polícia não estaria acima da sociedade, mas estaria a serviço dela e supervisionada por conselhos de segurança.
 
O senhor defende a legalização de todo e qualquer tipo de droga. Como isso funcionaria e o que o senhor pensa sobre a internação compulsória, uma política adotada recentemente pelo governo do estado de São Paulo?
A política de guerra às drogas tem se mostrado completamente ineficaz. Ela leva ao encarceramento em massa de uma população cada vez mais pobre. Se você for nos presídios no Estado de São Paulo, vai encontrar que 80% da população carcerária é entre pobres, negros e pardos. Isso é um absurdo, não é só pobre e negro que comete crimes. Essa é uma política de extermínio e encarceramento étnico-social. Um dos elementos que leva a isso é a política proibicionista em relação às drogas, nós temos defendido que para resolver o problema das drogas, ela precisa, primeiro, ser tratada como problema de saúde pública, no nível do usuário, inclusive, no nível do varejista, que é aquele que hoje é chamado de traficante, que mora na favela, mas que não é, necessariamente, o traficante e é uma questão também social. Temos defendido que para dominar o tráfico, é necessário a legalização de todas as drogas, começando imediatamente pela maconha e paulatinamente caminhando para outras drogas, na medida em que o Estado controle tanto a produção quanto a distribuição como, por exemplo, a proposta do governo uruguaio em relação à maconha. Mas por que isso? Primeiro, para o controle da qualidade do que é produzido, para que não gere outros problemas de saúde, segundo, que você controla quem usa, quem compra e pode implementar políticas públicas de redução de danos e de controle e desestímulo ao uso das drogas, através tanto da educação, quanto do sistema de saúde.
  
Quais são os principais problemas que o senhor vê na área da saúde e quais são suas propostas para resolvê-los?
 Eu tive a oportunidade de trabalhar por quase 10 anos tanto na saúde pública quanto na saúde privada. O grande problema da saúde pública não é só o sub financiamento, tem a ver também com a lógica do lucro e da iniciativa privada dentro de um setor que deveria ser um direito fundamental da população. Estive lendo alguns jornais aqui de Franca e vi que também está acontecendo um caso de crise na Santa Casa, o que é muito comum no Estado inteiro, agora é muito interessante perceber o seguinte, para além do sub financiamento, que já é uma forma de precarização, se você vai nesses serviços onde existem acordos ou convênios do Estado com as organizações sociais, você vai encontrar um sistema de dupla porta; hospitais que foram construídos com verbas públicas, que são geridos por verbas públicas, você tem a porta do SUS e a porta do convênio, onde, geralmente, o que há de mais precarizado está para serviço do SUS enquanto a maior parte dos investimentos são colocados na hotelaria e no atendimento do setor de convênio, isso é um importante elemento que nós temos apontado, que a saúde pública precisa ser 100% pública, não da para colocar interesses privados, sejam eles ditos filantrópicos. É necessário que isso retorne ao controle estatal. Também existe uma questão publicitária na questão da saúde, por exemplo, nós não temos nenhum problema com a vinda de médicos, nem de Cuba nem de outro país, mas o problema da saúde não se resolve apenas com médicos, não se resolve apenas com investimentos no nível da questão básica, tem que ter a policlínica estruturada, tem que ter especialistas, equipamentos próprios do estado para a realização de exames e diagnósticos de alta complexidade.
 
Uma proposta do senhor é para que as escolas sejam 100% públicas. Como funcionaria isso na prática? O senhor também defende que as escolas atendam em período integral, quanto custaria para transformar as escolas em período integral, como isso funcionaria na prática e de onde viriam esses recursos para ocorrer essa mudança?
Primeiro que a gente não pode simplesmente desapropriar uma escola privada, isso não é possível dentro dos nossos limites legais, o que defendemos é um sistema público 100% estatal. Nos níveis de atendimento das prefeituras você percebe que existem várias creches que são processos de terceirização do Estado, onde aumentam os problemas de denúncias, de violências contra as crianças, de má gestão, de desvios de recursos, o que nós temos proposto é que, a partir do Estado, se envie o dinheiro apenas na questão de nível pública, o que não é apenas de nível médio e fundamental, mas que, inclusive, isso sirva de parâmetro dos acordos e convênios realizados com a prefeitura. Em relação aos recursos, nós temos defendido abertamente que nós precisamos suspender o pagamento da dívida pública e passar a utilizar esses recursos imediatamente nos setores sociais. Por que suspender? Suspender para a realização de uma moratória, como eu disse anteriormente, essa dívida era de 46 bilhões, pagamos 160 e ainda devemos 191, existem indícios absurdos de formação fraudulenta a respeito da dívida pública, nós já pagamos essa dívida inúmeras vezes, hoje, por exemplo, é algo de 20 bilhões por ano que é gasto apenas em juros e amortização da dívida, e isso fora os interesses dos setores privados, que nas parcerias público ou privadas, que nos convênios com o estado, parte do recurso público vai para garantir o funcionamento privado dessas entidades, então havendo um processo de reestatização desses serviços somados com corte de pagamento da dívida pública nós teremos recursos suficientes, não só para estabelecer uma política de implementação das escolas em período integral, como outras propostas que nós temos colocado, como a questão da moradia popular, a questão da saúde e ouros aspectos que precisam ser transformados.
 
E em relação ao transporte público o senhor defende a implantação do tarifa zero. O senhor acredita que, realmente, esse sistema de transporte é viável? E insistimos em uma pergunta: quem pagaria  a conta?
 Olha só, eu tenho acompanhado o debate do transporte público há muito tempo, mas eu participei efetivamente das manifestações do ano passado que tinham a ver lá em São Paulo com o aumento da tarifa de R$3,00 para R$3,20. Fomos em audiências com o ministério público, audiências de conciliação, em todos os casos se pedia uma coisa das empresas de transporte: nos mostrem as planilhas, nos mostrem a relação de despesa e receita de vocês, ou seja, abram a caixa preta, que se diz ser deficitária, quando na verdade nós temos tarifas altíssimas com alto fluxo de população e ainda com essas empresas recebendo subsídios públicos. Então nós temos certeza que, com o valor que hoje é pago pela tarifa, só os elementos do subsídio público que já são aplicados seriam suficientes para você ter um serviço de transporte pelo menos idêntico ao que nós temos, se tirassem o interesse do lucro desses setores, então para fazer esse investimento no transporte e garantir a tarifa zero é necessário abrir a caixa preta do transporte no estado, quais são os interesses mafiosos que estão por trás das concessionárias, sejam empresas de ônibus, empresas ligadas a concessão dos trens de metrô, nós temos certeza que aquilo que o estado já investe seria suficiente para garantir o mesmo serviço, tirando o lucro dessa esfera.
 
(pergunta do internauta Thiago) O PCB é favorável à democratização dos meios de comunicação? Como seria a atuação da imprensa, nesse sentido, em sua visão?’
Hoje se diz que qualquer tipo de controle social sobre a mídia seria quebrar o direito de liberdade de imprensa, mas geralmente não se fala que são sete famílias apenas que controlam, há décadas, esses sinais de transmissão de concessão pública sem qualquer tipo de controle social sobre elas, então nós defendemos sim a democratização dos meios de comunicação, mas para que isso se efetive, não defendo que um partido ou que um governo realize esse processo de controle social como representante, nós temos que ter esferas de participação da população sobre isso. Em muitos casos na história brasileira você percebe que a atuação dos grandes veículos de comunicação foi determinante para manipular não só a intencionalidade do voto, mas determinados pontos de luta social. No caso das manifestações do ano passado temos um episódio clássico, em uma semana o Arnaldo Jabour falou que todos os manifestantes “não valem 20 centavos”; quando não conseguem controlar a população, vem um mea culpa cínico, onde ele tenta se fazer de vítima do processo e tenta pautar os movimentos de acordo com os interesses da organização que ele representa. Então, acreditamos sim que deve haver o controle social, mas um controle social através do mesmo método que temos defendido, que é por conselho popular da mídia, com a participação dos trabalhadores, das empresas de comunicação, com a participação da população que é atendida por elas, e onde o empresário que quiser participar não vai ter direito de um voto a parte, ele vai participar como um membro da população, como qualquer outro.
 
Qual a avaliação o senhor faz da gestão do governador Geraldo Alckmin? E senhor apontaria algum acerto do governador?
Acho que o acerto pode acontecer no momento em que ele renunciar, eu não acho que isso vá acontecer, mas o governo, não só do Alckmin, do PSDB do Estado de São Paulo nos mais de 20 anos, tem sido fundamental para desmantelar os serviços públicos, tem sido fundamental para a crise hídrica que nós vivemos hoje no estado de São Paulo, então, por exemplo, metade das ações da Sabesp foram privatizadas e os investimentos necessários para manutenção, ampliação, reparos na rede de distribuição de água, para tratamento da rede de esgoto, não foram efetivados, pois o interesse do lucro é para quem o PSDB tem trabalhado.
 
Se as pesquisas se confirmarem, tudo indica que o governador será reeleito ainda no primeiro turno. Se ele é tão ruim assim, por que ele ainda está vencendo no primeiro turno?
Primeiramente, o Estado de São Paulo é o estado onde o grande capital é instalado. Ao mesmo tempo que temos a maior parcela de classe trabalhadora do País, o núcleo do sistema capitalista, das elites, está em São Paulo, e eles têm o controle praticamente de todas as estruturas estatais e da mídia. Para além disso, acho que aí tem um grande papel do Partido dos Trabalhadores. O PT, nos últimos doze anos de governo, efetivou um processo de despolitização da massa da população ao se colocar em um patamar onde, geralmente, era combatido por esse partido, levando a população hoje a acreditar que política, partido, é tudo a mesma coisa. Então o que importa é que ele simplesmente dê resultado em bons aspectos, por exemplo, a Polícia Militar do Estado de São Paulo é, ao mesmo tempo, uma fábrica de extermínio, mas é também uma peça fundamental para a população que é educada via programas policiais nas tardes das grandes emissoras, o processo da educação que foi à falência. Existe um grande conjunto de fatores que levam a essa despolitização e à formação de um senso comum conservador com tendência a direita no estado de São Paulo. Nós achamos que estamos em um fechamento de ciclo e o fato do Alckmin ser ou não eleito no primeiro turno aponta que aquilo que a classe trabalhadora e a população construiu no último período levou à desmotivação da população e a formação de um senso comum que apela sempre para o pragmatismo e não para projetos de fuga; agora, é possível desconstruir isso.
 
São Paulo vive uma crise no abastecimento de água e uma das propostas do senhor é a reestatização da Sabesp, como uma maneira de melhorar esses investimentos para possíveis soluções. De forma prática, como isso seria feito, quais os benefícios que isso traria para os municípios, como por exemplo Franca, que é atendida também pela Sabesp?
Para ver como esse nosso governo atual é hipócrita. Em momento algum foi anunciado que tem racionamento de água em São Paulo, e todo mundo que tem aberto a torneira no período da noite, no final da noite, vê que a água não está na torneira. Primeiro aspecto então para resolver e ter ações de curto, médio e longo prazo, em primeiro lugar é necessário iniciar um processo de racionamento de água, pois o problema que tivemos neste ano não é um problema que não vai se repetir, teremos problemas nos próximos anos em relação a isso. Segundo aspecto, é urgente que os recursos da Sabesp não sejam passados para dividendos de acionistas, sejam utilizados para ampliar o tratamento da rede de esgoto, garantindo reuso dessa água. Se hoje o estado de São Paulo tivesse tratamento de 100% dessa água das redes de esgoto e reutilizada na agricultura ou na indústria, teríamos uma quantidade de água que equivale a dois sistemas Cantareira. Se tivesse feito a manutenção, como se deve, da rede de distribuição de água, não perderíamos 1/5 da água que é perdida por vazamentos na rede de distribuição. Então tem vários investimentos urgentes que precisam ser feitos, onde o interesse do lucro, e aí não é o Estado que é complicado nisso, é o repasse de dinheiro para a formação de patrimônio de acionistas, hoje isso se tornou um empecilho na realização de investimentos para atender a população.
 
Sobre a possibilidade de sobretaxar os consumidores que abusarem do consumo, qual o seu posicionamento a respeito?
Desnecessária. Recentemente eu vi uma matéria de jornal que dizia que 75% da população já diminuiu, e muito, o gasto de água. Além disso, é falso que a falta de água está relacionada diretamente ao mal uso da população, tem um componente disso, mas o causador dessa situação são os interesses privados. Há mais de duas décadas são previtas alterações no volume de chuva e não foram feitos investimentos efetivos, pior, as soluções que são dadas de urgência não só prejudicam a reposição dos mananciais de São Paulo, como a contenção do fluxo da água do Rio Paraíba e como pode, também, prejudicar a contenção da água dos rios de mais dois estados. Pode prejudicar as populações dos estados do Rio e de Minas Gerais, isso tudo tapando o sol com uma peneira para esconder que o governo do estado de São Paulo não é dirigido para atingir e atender os interesses da população, eles são o meio para garantir os interesses dos grandes grupos que estão por trás desse governo.

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