Em meio a 80 crianças que compareceram, na tarde de ontem, à sede da Infacape (Instituição Família Cavalheiro Caetano Petráglia) para o Dia da Tabuada, os cabelos brancos de Hermenegildo Garcia Filho se destacaram. Também chamou a atenção o sorriso espontâneo desse senhor de 86 anos, que pode acompanhar de perto o resultado de um projeto que vem desenvolvendo há dois anos junto com o filho Fábio Tadeu Garcia. O objetivo do marceneiro aposentado é auxiliar alunos em idade escolar no processo de aprendizagem de matemática.
O evento que reuniu cerca de 250 crianças, entre os períodos da manhã e da tarde, foi criado pela dupla para que pessoas carentes tivessem acesso ao jogo “O X da Questão”, criado por eles para motivar os pequenos a aprender a tabuada. A proposta é fazer as crianças aprenderem brincando. “Percebi que as crianças de hoje não sabem a tabuada. Então resolvi criar um jogo para ajudá-las”, disse “seo” Garcia, como é conhecido.
A ideia começou a ser desenvolvida com um jogo mais simples. “No começo era só uma ficha com a operação de um lado e o resultado (da tabuada) escrito no verso”, disse Garcia, ao explicar que a criança que ia responder ao desafio lia os números a serem multiplicados de um lado e os adversários viam o resultado do outro, assim os colegas iam memorizando o resultado da operação. “Decidi enviar para o meu filho ver no que poderia ser melhorado. Ele fez o trabalho de design e assim nasceu ‘O X da Questão’.”
De acordo com Fábio, que trabalha como designer gráfico, a criação e aprimoramento gráfico e conceitual do produto aconteceram após muita insistência do pai, que fez o “rascunho” do jogo usando papel laminado e cartolina para silkar os números. “Ele mexia com silk em camisetas e banners e aproveitou os materiais que tinha para montar o jogo. Ele insistia muito para que eu aprimorasse a ideia. Acabei montando uma nova versão e dei de presente para ele no Natal. Confeccionamos as peças usando papelão laminado”, contou.
Teste
Percebendo o potencial que a brincadeira carregava em si, Fábio foi além e buscou parcerias para medir a eficiência do projeto. “Moro em Franca e conheço o trabalho da Infacape. Procurei a instituição e pedi para que testássemos o jogo com as crianças para saber o que elas achavam e foi muito produtivo. Descobrimos que para crianças de 6 anos o jogo era difícil; para as de 10, muito fácil e, para as de 8, divertido”, disse Fábio Garcia.
A partir do teste, o jogo se dividiu em três modalidades: a “aprendiz”, em que as crianças colorem desenhos dos números que são em forma de bichos. Já a versão “júnior” segue a ideia inicial de Garcia ao criar os jogos. Ela contém as cartas dobradas que escondem as operações e devem ser colocadas sobre a mesa. No jogo, a criança retira uma peça e abre para ver qual a operação matemática a responder. No verso, está o resultado. “A carta fica dobrada para a criança não escolher a operação mais fácil. O jogador abre a cartinha e lê por exemplo 8x7. No verso está escrito o resultado: 56. Enquanto o jogador segura a carta pensando no resultado, os amigos ficam lendo e memorizando a resposta”, disse Fábio.
A outra modalidade é a “desafio”, com maior grau de dificuldade para crianças de idade superior. Nela, ocorre o inverso. A criança desafiada lê o resultado e deve adivinhar qual a operação. “Ela vê 56 e tem que falar qual multiplicação tem esse resultado, no caso 8x7.”
Saiba mais
Os jogos já estão sendo vendidos. As instituições e pessoas que queiram saber mais sobre “O X da Questão” podem acessar os sites matereeducacional.com.br, aprendatabuada.com.br e diadatabuada.com.br. Interessados em financiar o projeto ou pleitear a doação de jogos através do Dia da Tabuada podem fazer o mesmo caminho. É válido ressaltar que a cada jogo comprado, outro é fabricado para ser doado a instituições. Segundo Fábio, há cerca de 500 jogos para serem doados. No evento de ontem na Infacape, aproximadamente 80 crianças - incluindo as do Ceprol (Centro Promocional Nossa Senhora de Lourdes), que foram convidadas - que tiveram melhor desempenho, ganharam jogos do “O X da Questão”
Apoio
Com apoio de empresas para realização de eventos, como O Dia da Tabuada, mas sem patrocínio efetivo para a produção, pai e filho passaram a se inscrever em concursos de aceleração para startups. “No da Fiesp, que teve mais de 10 mil inscritos, ficamos entre os 300 selecionados. Depois, ficamos entre os 40 melhores em um programa internacional, promovido pelo Governo de Minas Gerais, que teve 1.346 inscritos de 46 países, entre outros concursos. Foi graças a esse programa que conseguimos imprimir o projeto, mas ainda buscamos financiamento”, disse Fábio.
Para “seo” Garcia, tudo isso é só um começo. “Não pretendemos ficar só no ‘X da Questão’. Estou criando ‘O que é que é’, um jogo da Língua Portuguesa voltado para a alfabetização”, complementou.
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