Perto de 60 bois e vacas, todos Nelore, permaneceram boa parte do dia apartados em um curral isolado na zona rural de Patrocínio Paulista. Estavam esperando que o caminhão de um frigorífico viesse retirá-los dali. Estavam indo para o abate para fugir da sede. Na fazenda em que estavam não há mais água para todos eles.
Pior do que ver animais espremidos à espera da desossa, alguns ainda fora da idade e peso ideais para o abate, é presenciar a situação em que lugares antes cheios de vida agora amargam a dureza da escassez, da falta de condições mínimas para a continuidade da vida.
Visitamos ao acaso uma área em que se concentram quatro propriedades de uma mesma família. Rodeadas pelo Córrego Silveira, um afluente do Rio Sapucaí e que deságua em Franca, estão as fazendas São Joaquim, São Tarcísio, Lajinha e Humaitá.
Na São Tarcísio, uma bela sede, construída sobre porões altos, na que pode ser a edificação mais antiga do município, está abandonada há muitos anos. Dentro, alguns móveis indicam como era ocupada pela família de Célio de Andrade Lopes, 69.
Célio nasceu e viveu ali. Estudou na escola rural ainda de pé na propriedade comprada pelos avós em 1929. Viu funcionar a usina de força, monjolo e moinho, todos movidos pela água farta que correu durante centenas de anos provavelmente e que agora é uma lembrança dura de aceitar.
A não ser por alguns pequenos vasos, molhados todos os domingos, religiosamente, pela herdeira da fazenda, não há mais uma única gota de água por ali. Andar por ali, acompanhando as explicações de Lopes - “por aqui corria a água, que era represada e solta para movimentar a usina”, “aqui era o moinho de fubá, que funcionava o dia inteiro” - é se colocar diante de uma enorme fragilidade. “Hoje não tem água para lavar as mãos”, sentenciou.
Dono da Fazenda Lajinha, Lopes chora e se emociona ao falar da penúria pela qual está passando. “Precisei soltar o gado para ir atrás de água”, disse. Na Lajinha, onde formou filhos e sempre tirou sustento, o futuro é incerto. Foi quando liberou as 120 cabeças que tem que pode perceber melhor de como estava a propriedade.
Seu sobrinho, Fernando Lopes, veterinário que junto com o pai toca a Fazenda Humaitá, disse que ainda estão insistindo em ficar, mas não sabem até quando. Produtor de leite, café e também gado, segundo ele, o assédio de usineiros é tão grande que fica difícil imaginar outro destino para as terras que não seja arrendamento para a cana. Pelo menos algum dinheiro estaria garantindo.
“O problema é que eles vão chegar aqui com trator e corrente derrubando tudo. Curral, casa, escola. Não vai ficar nada em pé. Mas eu não sei até quando a gente aguenta assim”, disse.
Cássia
Em Cássia (MG), nada foge ao mesmo desalento. Com produção de café estimada em uma perda que pode chegar a 30%, segundo estimativas do secretário de Agricultura do município com 14 mil moradores, Odilon Americano Alves Júnior, o núcleo urbano fez o consumo de água chegar a 160 litros por pessoa ao dia e bairros mais altos já sentem dificuldades de abastecimento, sem risco de racionamento, de acordo com a Copasa.
Ainda assim, essa água toda vai fazer muita falta, como a que está fazendo para o agricultor Fernando Antônio Luvizotto, 68. Sua fazenda, a Resfriado Toca da Onça, de onde tira café e leite, teve a paisagem alterada nos últimos anos.
No entorno da casa onde mora com a mulher, Maria Lúcia, e os filhos, ele explica que havia um alagado enorme que nunca havia secado. Mas secou. E secou de tal maneira que até a moita de bambu, geralmente resistente, está trincando, sem água.
Mas Toninho Luvizotto ainda tem um aliado que corre já não tão barulhento e cheio como antes, a uns 50 metros indo para os fundos da fazenda.
Acompanhando a reportagem, Luvizotto e o fila Hulk vão na frente. Ao chegar perto do rio, com uma pequena cachoeira, aponta: “Olha aqui, que riqueza”, disse, mesmo que ela já esteja pela metade.
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