A figura do agricultor Mário Taveira, de 80 anos, na janela da sua propriedade, um sítio modesto em Claraval (MG), era a imagem da desolação. O córrego que durante todo o tempo forneceu água para todas as tarefas está no fim. Na cabeceira, já secou. Resiste um pouco porque encontra algumas minas pelo caminho. Mas para o senhor Taveira, a situação é de angústia.
Seus pés de café, base da economia da família, já passaram pelo esqueletamento, uma medida drástica que os produtores tomam na tentativa de salvar a planta para floradas futuras. São praticamente tosados e ficam um ano sem produzir nada. Na entrada da propriedade, enfileirados, são uma linha reta de galhos secos sem nenhuma folha.
Claraval é uma das poucas cidades na região em que a cana não chegou. São 2.300 hectares de café plantados com média anual de 40 sacas por hectares, bem acima da média nacional, estimada em 25 sacas.
Diferente de muitas culturas, a falta de água, ou estresse hídrico, é benéfico para o café, quando ele está em ponto de floração. Mas no solo que concorre com a planta pela pouca água existente, a lavoura está quebrando.
Meio aturdido, o velho agricultor olha a reportagem com a indagação clara de quem esperava por alguma boa notícia. Mas de acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), chuva ali só na segunda quinzena de outubro.
Ao apontar para duas propriedades vizinhas, mesmo quem não é entendido, acaba vendo origem lenta a gradual da falta de água em sua propriedade. De um lado, eucaliptos plantados até o limite do córrego, o que é considerado crime ambiental. Do outro, há apenas uma intenção, que já vem tirando seu sono. “É meu primo, sabe, mas acho errado o que ele vai fazer. Disse que quer trazer a roça de café até aqui”, e aponta para a beirada da água.
A pouco mais de um quilômetro de distância da propriedade de Taveira, a comunidade Bertolino abriga 34 produtores de café e leite que se uniram em associação, presidida por José Alves de Freitas, 67. Sua mulher, Isolina, 62, nasceu no lugar.
A salvação da família Freitas, assim como das outras, é um poço artesiano perfurado três anos atrás. Não fosse ele, com 170 metros de profundidade e vazão de seis mil litros por minuto, cujo consumo, pago, é controlado por medidores, a situação já teria ficado insustentável.
Nos fundos do sítio de 11 hectares de José Alves, conhecido por “Dãozim”, o ribeirão em que o filho, Alexandre, nadou na infância, hoje está limitado a um risco de água no solo. Se não chover a ponto de recuperar os pés de café a solução será arrancá-los todos.
Para o superintendente da Cocapec (Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas) em Franca, Ricardo de Andrade, o grande problema foi a ocorrência de um veranico forte, um período de seca dentro da estação chuvosa, principalmente entre janeiro e fevereiro, sem precedentes na história recente.
O fenômeno climático fez com que a produção que está finalizada agora não confirme as expectativas e já tenha uma previsão de queda de, no mínimo, 15%. Além da quantidade, a qualidade dos grãos, que ficaram menores, também deve apresentar problemas.
No ano, de janeiro a setembro, deveria, segundo Lima, ter chovido perto de mil milímetros, se o regime histórico fosse mantido. Em 2014, no entanto, foram registrados entre 400 e 500 milímetros, dependendo da região. Com isso, plantas novas, que ainda não produziram, já podem estar comprometidas para o ano que vem. “Nós estamos vivendo de poupança de água. Como não entrou nada esse ano, o saldo é zero”, disse o dirigente da Cocapec. “Se o ciclo se repetir nesse próximo verão será o desastre.”
Cana
A outra cultura dominante da região também está sendo afetada pela estiagem prolongada. Usinas de cana anteciparam em até dois meses a colheita em várias cidades como forma de não sofrer perdas maiores.
Na Cevasa, com sede em Patrocínio Paulista, com 28 mil hectares plantados, a queda anunciada é de 5%, segundo Luís Marcelo Spadotto, diretor da empresa. Das 90 toneladas esperadas por hectare, estão sendo colhidas, em média, 86. A qualidade, por outro lado, é melhor, com maior concentração de açúcar.
De acordo com ele, comparada a outras regiões, a de Franca e Ribeirão Preto ainda está sofrendo menos com o período seco.
Da mesma forma que no café, porém, é a persistência da estiagem que preocupa também nos canaviais. Se ela continuar, a quebra virá na safra 2015, embora o executivo tenha evitado falar em prejuízos ou previsões negativas. “Precisamos esperar que as chuvas ocorram.”
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