Lago baixa todos os dias


| Tempo de leitura: 3 min
“Braço” do Rio Grande em que empresa fazia captação de água para irrigar plantação de bananas, na cidade mineira de Delfinópolis, é visto quase seco. Produção está comprometida
“Braço” do Rio Grande em que empresa fazia captação de água para irrigar plantação de bananas, na cidade mineira de Delfinópolis, é visto quase seco. Produção está comprometida
No dia 17 de abril desse ano, a Prefeitura de Delfinópolis, em Minas Gerais, foi surpreendida por um comunicado de Furnas que, de forma direta e sucinta, anunciava que o reservatório da Usina Mascarenhas de Moraes seria rebaixado em 13 metros para que a vazante possa acudir usinas distantes centenas de quilômetros, como Ilha Solteira e Marimbondo, entre Icém (SP) e Fronteira (MG).
 
A redução do lago em Delfinópolis é apenas um capítulo a mais no cotidiano dessa cidade que é política, social e economicamente dependente do humor com que a empresa de Furnas, responsável por 40% da geração de energia elétrica no Brasil, trata do assunto. 
 
Não foi a primeira vez que a direção da central energética deixou claro que o reservatório é parte de um sistema estratégico de geração de energia interligado e não um piscinão gigante que sirva para garantir diversão para uns e sustento para outros.
 
Recebido o comunicado, os municípios de Passos, Delfinópolis e São João Batista do Glória entraram com uma ação cautelar para impedir que o lago começasse a descer. Na Justiça Federal de Passos (MG), teve o pedido atendido, mas um recurso de Furnas garantiu à empresa manter a decisão. 
 
Furnas só poderá rebaixar o lago após executar obras que garantam a travessia de pessoas, veículos e cargas nas balsas que operam dia e noite e que são a única maneira de chegar a Delfinópolis a partir de Cássia ou Franca. 
 
Para explicar melhor, basta dizer que se o lago descer os 13 metros pretendidos, o ponto de travessia das balsas terá suas margens recuadas em, aproximadamente, 400 metros de cada lado. Esse é apenas um problema.
 
Em muitos pontos do reservatório, não há 13 metros de profundidade, de acordo com várias fontes ouvidas pela reportagem. Com a redução, o lago desapareceria nesses locais afetando de maneira direta piscicultores como Renato José do Bem, 49, que largou os canaviais em Serrana, para criar peixe em Delfinópolis.
 
Renato investiu R$ 700 mil do próprio bolso no empreendimento, que, agora, vê ameaçado. Ele não está sozinho. Outros produtores estão apreensivos, já que mesmo com a suspensão condicional do rebaixamento, a água vem baixando lentamente todos os dias, a conta-gotas, segundo observam quem ali está rotineiramente. 
 
Banana
Cultura marcante na região, a banana também está sofrendo. Não para a safra deste ano, garante o gerente da Brasnica, o maior empregador local, que cultiva 300 hectares da fruta em Delfinópolis. Arnaldo Yuji Oda, gerente da empresa, disse que a perda para o ano que vem já é dada como certa em 30%, perto de 2.700 toneladas. “Não é uma conta fácil de fazer, porque perde em quantidade e perde em qualidade”, disse Oda. “Ninguém imaginava que isso fosse acontecer ao lado da represa”, afirmou ele, que está buscando água para irrigação a 300 metros de distância do ponto de coleta anterior.
 
Para piorar o quadro, o esgoto gerado pela população de Delfinópolis é jogado no lago sem nenhum tratamento. Com o recuo das margens, correrá a céu aberto. 
 
A Copasa, concessionária responsável, informou que uma estação de tratamento de esgoto estará pronta até maio do ano que vem, entrando em operação até setembro de 2015, conforme afirmou o gerente em São Sebastião do Paraíso, Flávio Bocoli.
 
Furnas, por sua vez, disse que a determinação do rebaixamento do reservatório é do Operador Nacional do Sistema (ONS). O nível vem gradualmente sendo baixado e, segundo a empresa, está hoje com 660,9 metros, devendo baixar ainda mais oito metros. 
 
Sobre as obras que garantirão o tráfego das balsas e o novo ponto de ancoragem, a nota de Furnas enviada ao Comércio informa que estão sendo providenciadas.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários