O Rio Sapucaí definha


| Tempo de leitura: 3 min
Leito do Rio Sapucaí, na região do Horto Boa Sorte, em Restinga. Estiagem dos últimos meses expõe problemas cada vez mais comuns no rio: o assoreamento e formação de bancos de areia
Leito do Rio Sapucaí, na região do Horto Boa Sorte, em Restinga. Estiagem dos últimos meses expõe problemas cada vez mais comuns no rio: o assoreamento e formação de bancos de areia
Quem viu o Rio Sapucaí sete anos atrás batendo na borda da rodovia Cândido Portinari, em Batatais, na cheia de 2007, dificilmente acreditaria a que ponto o mesmo rio chegaria pouco tempo depois. Naquele ano, motoristas paravam para fotografar a imensidão de água que se formou, alagando propriedades e, em alguns momentos, chegando a cobrir a rodovia. Hoje, o inverso é igualmente marcante.
 
O Sapucaí, tanto quanto a maior parte dos rios paulistas, está agonizando. Limpo, bonito, responsável pela manutenção de um importante ecossistema regional, ele agora corre em fiapos de água.
 
No assentamento da Fazenda Boa Sorte, em Restinga, o rio, que era fonte de vida, está obrigando as famílias dos assentados, que já vivem em situação precária, a procurar alternativas.
 
Para o consumo, poços artesianos garantem o fornecimento. Mas é para as pequenas roças e para os animais que o velho Sapucaí está fazendo mais falta.
 
O cearense Pedro Rocha é figura conhecida por lá. Aliás, Pedro Xapuri, nome herdado depois de sua passagem pela cidade homônima, no Acre, conhecida que ficou pela morte do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em dezembro de 1988.
 
Na Boa Sorte há 16 anos, vive da acerola e da banana que planta no braço, quase sozinho. Nunca passou por perrengue parecido. 
 
A falta de água para a lavoura está praticamente aniquilando com suas mil covas de banana maçã. Por baixo, umas 20 toneladas de fruta deixarão de ser colhidas, estima ele.
 
Sem umidade, o caminho ficou aberto para pragas que atacam o tronco das bananeiras e cujo único remédio é o corte do pé por inteiro.
 
No dia em que a reportagem esteve no assentamento, numa manhã extremamente quente do começo de setembro, Pedro Xapuri estava no seu lote. O sol não incomodava sozinho. A aridez do solo, a sensação de braço e pescoço queimados e uma sede que não passava traziam um enorme desconforto.
 
Como conhece na palma da mão a região, com saúde de sobra, guiou repórter e fotógrafo por uns dois quilômetros dentro de uma mata fechada. O objetivo era ver como estavam as diversas lagoas que retinham naturalmente a água do Sapucaí na região, servindo como um anteparo para o rio.
 
Formadas pela ação do tempo, as lagoas são quase todas em formato de ferradura. A imagem, que não parece impactante à primeira vista, tem outra dimensão quando chegamos próximo a elas.
 
A água, que tomava conta de uma extensa planície recuou a níveis que o próprio Pedro Xapuri jamais tinha visto. A água pouca do Sapucaí não consegue encher as lagoas mais. No chão, as marcas do recuo dão uma ideia muito apropriada de quanto o rio encolheu nos últimos meses. E impressiona.
 
Ao bater com seu facão em um paredão de rocha de uns sete metros de altura, o agricultor fala em tom de inconformismo: “Isso aqui ficava gotejando o dia inteiro. O chão alagava. A água que vinha por meio da terra escorria toda por aqui”, disse ele.
 
Hoje, o único sinal de que havia muita água no lugar são as muitas samambaias que ainda estão por lá.
 
Após a volta, pela mesma mata da ida, a garganta seca de uma forma desconcertante, paramos na pequena casa no meio da plantação de Xapuri. De um lado, a banana perdida. Do outro, a acerola que pode ser a salvação. “Eu nunca presenciei isso que está acontecendo agora. Onde falta água, falta vida.” 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários