O ingazeiro na zona rural de Rifaina ainda insiste em permanecer frondoso e cheio de frutos. É parada natural para maritacas, papagaios, bandos de tucanos. Mais a frente, buritis, embaúbas, sangras d’água e bromélias pontuam o chão, um tanto já esmaecidos. São todos sobreviventes. São todas espécies que só nascem e crescem em ambientes típicos de alagados, banhados.
Neste cenário quase idílico, onde endinheirados e farofeiros eventuais se divertem e refestelam em dias quentes diante de um mundo de água, onde a razão de ser de ranchos milionários, pousadas, ancoradouros e garagens para barcos é justamente a existência de uma represa, proprietários rurais a menos de um quilômetro dali estão sofrendo com a longa estiagem que fez desaparecer minas, pequenos córregos, fez ribeirões importantes para a manutenção do Rio Grande baixarem em mais de um metro sua altura.
Não é preciso andar nada para que a paisagem de cerrado vá dando rapidamente lugar a um cenário de semiárido. Pior: animais já teriam morrido em algumas localidades por falta de água e pasto, embora essa informação não possa ser confirmada pela reportagem.
O que era caída de água perene agora é um lugar esturricado. Duas horas andando por ali resseca o corpo por dentro. A pele sente, o nariz reclama. Que dirá aqueles que por ofício ou teimosia não podem deixar o lugar onde estão. Que pensar, então, dos animais que já não encontram com a mesma abundância o que beber ou pastar.
Por onde quer que se ande, ainda que não seja preciso se afastar muito da cidade, o que se vê é parte resultado da ação da natureza, com uma grande ajuda da mão do homem.
O cabo da Polícia Militar, Eduardo Luís Nery, 45, conhece esses lugares como ninguém. Nascido em Franca, roda por Rifaina inteira desde os cinco anos, quando chegou para morar com a família. Prestes a se aposentar, esporadicamente organiza passeios e caminhadas entre cidades da região.
Das cachoeiras que encontrava na adolescência e juventude, a maioria virou lembrança de fotografia em preto e branco. Mostra uma foto de quando tinha 15 anos: “Olha a altura dessa aqui! Não tem mais nada”, exclamou com certa indignação.
Nery guiou a reportagem do Comércio por alguns caminhos, sempre no rastro do que desapareceu. “Jaguatirica gosta de árvore assim”, aponta ele. “Nessa mata mora um veadinho campeiro”, indica o policial, para depois provar o que diz, mostrando o registro do bicho em seu celular.
A primeira parada é no sítio Barra do Rosário, de Cláudio Antônio de Paula Vieira, 55, o “Buda”. Com 14 alqueires, a propriedade está com sua família há mais de cem anos.
O sítio, que até bem pouco tempo atrás não tinha portão ou porteira, fica na beira de uma vicinal. Era ponto de parada para quem estivesse caminhando ou se exercitando. Quem chegasse podia entrar, ainda que o dono não estivesse. Sobre a tampa de cimento que cobre até hoje a caixa de água, várias latinhas, dessas de massa de tomate, eram deixadas para que as pessoas matassem a sede.
A água pura que servia tanto a visitantes quanto a moradores vinha, canalizada, a partir de uma mina a menos de cem metros da entrada do Barra do Rosário. O aguaceiro da mina, que era tanto a ponto de obrigar a construção de um dique para conter a vazão, desapareceu. As manilhas instaladas para evitar que a água passasse por cima de uma estrada de terra não servem para mais nada.
Mais de um ano atrás, o volume começou a diminuir. Há três meses, pelo menos, nenhuma gota de água corre do morro que agora é ocupado por um canavial. Secou por completo. Buda fala da cana e olha para ela como alguém que vê o inimigo chegar de mansinho, ocupar seu território e destruir tudo. “Depois que plantaram esse canavial aí secou tudo. A cana chupa a água do solo. É cana e eucalipto que faz isso”, disse ele, acreditando que a estiagem ajudou e o canavial apressou o fim da água no subsolo, além da instalação de uma usina na região.
Hoje, ele precisa estender uma mangueira até a beirada da represa que serve de lazer em Rifaina para bombear água, que, ao contrário da servida pela mina, não pode ser bebida. Serve, no máximo, para lavar roupa e jogar nas plantas.
Para matar a sede, só comprando a que é comercializada na cidade. A saída encontrada foi perfurar o chão e instalar um poço semiartesiano ao custo de R$ 15 mil, que ainda não está funcionando.
Do ponto onde estamos, que era praticamente um brejo, o cabo Nery então aponta para um morro uns 500 metros distante em linha reta. Eram várias cachoeiras que corriam em sua encosta, conta o policial. Só restou a vegetação não verde, mas em tons de ocre.
Também perto, uma ravina indica a existência de um curso de água. “Era um córrego que sempre foi muito cheio”, afirma Benedito Bernardo, que trabalha no sítio. Se não chover o suficiente para restabelecer seu volume, pode ser que desapareça também.
A reportagem segue para a beirada do Ribeirão Bom Jesus, que nasce em Pedregulho, outrora um importante afluente do Rio Grande. Em um descampado, encontramos Odair Silva Fidelis, de Franca, que pescava com amigos, ou pelo menos tentava, porque peixe no Bom Jesus atualmente é coisa rara.
O local escolhido para um acampamento improvisado é um descampado, que vivia permanentemente alagado. Ele mesmo contou a experiência de ter sido surpreendido por uma inundação que em minutos tomou conta do lugar, obrigando todos, em segundos, a abandonarem o local.
“Podia o tempo estar limpo, mas se chovesse na cabeceira, ia inundar tudo aqui”, disse o cabo Nery. O Bom Jesus é um traço do que foi. Com profundidade na parte mais funda que podia chegar a sete metros, hoje ele está com no máximo dois metros de altura, sendo possível caminhar em boa parte de sua extensão.
No caminho de volta, a reportagem encontrou Marino Magalhães de Oliveira, 58, que ajuda o filho nos cuidados com um pequeno sítio, o Recanto do Tim Tim. Embora tenham tomado precaução para não deixar as quase 30 cabeças de gado perecerem de sede, a bomba que puxa água de uma mina próxima à propriedade já não pode funcionar ininterruptamente como antes.
Agora são 40 minutos ligada e mais nada. Esse é o tempo que leva para secar toda a água disponível até que a natureza recomponha o volume novamente.
Marino Oliveira contou que no sítio vizinho ao Tim Tim animais já teriam morrido e os que sobraram, o dono tenta vender, mas não consegue por causa da magreza. “Lá morreu uma égua de sede e vocês precisam ver os dois porquinhos do jeito que estão. É sede mesmo. Não tem água”, disse Oliveira. No sítio citado, aparentemente vazio, ninguém atendeu.
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