Calados!


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Se você observar alguém lavando calçada neste tempo de crise de água, experimente cobrar. Afora os ‘cuide de sua vida’, ‘não me encha o saco’, e possíveis palavrões, a resposta mais corrente será ‘ué, não pode? Eu não sabia! Ninguém me disse!!!’. A maioria das pessoas não tem informação. Pelo Whatsapp, Facebook e restantes redes sociais só se troca frescuras. É o ‘bafão’ do dia, o ‘gato ou a gata’ que se pegou ontem, a balada, nada que agregue conhecimento ou sirva para algo útil. Ninguém mais se interessa pelo que ocorre em volta de si. A submissão à grande rede tem feito com que pessoas deixem de se ver pessoalmente, de prestigiarem o outro, valorizarem o olho no olho. Foram para o lixo a educação familiar, a escola comprometida e a espiritualidade, substituídas pelos ‘valores modernos’ das redes sociais, ‘amigos’ e rua.

Sujeitos sem informação são nada, e formam manadas que só sabem seguir o líder. Se esse diz que não há crise hídrica e não há desabastecimento, os que só seguem, acreditam. Pior: a Sabesp, para não dizer que há problemas, confirma tacitamente quando não fala! Alguém da empresa deixou escapar, e eu soube, que não se manifesta porque este é ‘tempo político’. Correram depois para dizer que não é isso, que a empresa pode sim, falar.

Estive, por mais de dez anos, ao lado de profissionais de água e esgoto que integram a Sabesp de Franca. Afirmo categoricamente: sabem e sempre souberam o que fazem, e como fazer. Privo da companhia, ainda hoje, com vários deles, a começar pelo gerente distrital Rui Engrácia Garcia Caluz e, menos do que gostaria, com o atual superintendente local da empresa, Gilson Santos de Mendonça. Convivi com os superintendentes anteriores José Everaldo Vanzo e João Batista Comparini por décadas. Não são só administradores. Chamo-os cientistas completamente comprometidos com água potável e esgoto colhido e tratado, e da saúde que disso deriva.

Demonstraram-me, na prática, que saneamento básico bem feito significa 70% de reducação na ocupação de hospitais, já que a maioria das doenças é de veiculação hídrica. Sei que não dormem quando a água não chega às torneiras, ou que 100% dos esgotos não estãos sendo tratados para que a água servida volte à natureza mais pura do que foi colhida. Sobretudo, nunca testemunhei a empresa se recusar a falar o que tivesse que ser dito. Jamais vi o gerente distrital, Rui Engrácia Caluz fugir de qualquer assunto. Testar Rui sempre era fácil. Era só ir ao microfone de uma emissora de rádio para sabê-lo utilizando o mesmo espaço poucos instantes depois para explicar, solucionar, se desculpar de fosse o caso. Rui desapareceu. Pode parecer estranho para muitos, mas, para mim, não é inexplicável. O ‘ato falho’ de quem falou, inadvertidamente – talvez tenha se cansado de tentar tapar o sol com a peneira – explicita um cala-boca nos competentes gestores da empresa. Vão dizer que não, mas é tempo político, e desabastecimento de água pode gerar derrubada de intenção de votos nos atuais governantes . Não é segredo para ninguém que, embora avisados e reavisados por seus técnicos, não realizaram os investimentos indispensáveis que abrandariam a grave crise hídrica que se abate sobre a população paulista.

É aterrorizante ver instituições eficientes, eficazes e essenciais à vida serem caladas por força de vaidades políticas, mas não é novidade. O Brasil ‘federal’ está desconstruindo a Petrobrás, patrimônio nacional. Agora, o Brasil ‘estadual’, que ‘vendeu’ metade da Sabesp a investidores que só querem lucro, desestimula, em benefício das estatísticas de voto, a competência de seus técnicos. As pessoas têm que deixar de se idiotizar nas redes sociais, olhar para o lado e compreender. Talvez tenha que deixar de dizer que ‘não sabe de nada’ como ensinou recente governante do país. Temos que saber das coisas e ter opinião. O dia de gritar independência — e que é só um, de dois em dois anos — se aproxima rapidamente: é cinco de outubro.


Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br 

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