Sala de espera em consultórios, hospitais, laboratórios é lugar para se ouvir histórias: é como uma roda em torno de uma fogueira. Muitos, atualmente, se isolam nos respectivos celulares: e ensurdecem. Costumava mergulhar em livros, ultimamente abro olhos e ouvidos ao ser circundante: leio-me nas gentes.
Quando em uma fila qualquer, a conversa engata com o vizinho detrás ou da frente e vira vídeo clip: fragmentária e intensa narrativa. Os mais velhos estão mais disponíveis para a prosa, em geral.
O guichê abriria dali uma hora e vinte minutos. Fui mais cedo para guardar o lugar, precisaria ser atendida rapidamente, já que tinha outro compromisso depois dali. Um senhor de cara fechada chegara antes de mim e se postara na minha frente. Estava lá há quase uma hora, formamos uma fila de dois, e daí logo três e pouco depois...muitos.
Era um senhor mais velho do que eu. As fisionomias se enrugam, e há tanta história nas rugas e elas são tão pessoais que, para mim, um rosto enrugado é singular, enigmático. Rugas são respeitáveis sinais: máscaras naturais forjadas por expressões de emoções em certos e incertos momentos, e que dizem das pegadas do mundo na alma de cada qual.
Meu vizinho de fila tinha pequenas bolsas debaixo dos olhos, e eu me perguntava o que guardavam elas; vincos marcados cortando as bochechas; era mais baixo do que eu; com cabelos acinzentados, mais jovens do que as rugas.
As rugas pareciam vir de apreensões graves, e, de fato, elas me foram narradas pelo senhor, aos poucos. Sua urgência de estar ali era maior do que a minha: perdera um documento vital. Começa por me narrar acontecimentos de sua vida, e vai remoçando: sorri, um tanto deliciado como narrador, e eu, por vezes, me surpreendendo com o seu relato. As suas rugas e o conteúdo da narrativa eram idosos, quase trágicos: sua mulher atropelada e impedida de andar; cunhado doente; irmãos que morreram dormindo; rumos profissionais contrariando verdes planos; problemas financeiros, mas não tão importantes como o orgulho de se sentir o patriarca da grande família. Recebeu pelo menos duas ligações no celular, da filha e da irmã solicitando atenção e ajuda. E era manhãzinha, na fila que crescia e se alongava, como a nossa conversa.
O tempo passou: uma hora e vinte minutos...fomos atendidos, na hora aprazada, eu e ele, e atrás de nós uma serpente espichada de gentes. Um aperto de mãos e nossas vidas se separam, sem rugas, sorridentes.
Uma hora e vinte minutos e a vida espichou dentro de mim: o senhor não me era mais um desconhecido, um qualquer. Aquelas pequenas bolsas debaixo de seus olhos seriam lágrimas não escorridas no momento oportuno? Os vincos faciais são vales de solidão escavados pelos tempos?
- Uma história, na imensa fila de histórias brasileiras.
Tudo é importante, quando um instante é tudo?
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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