Doce sabor


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Ela quis voltar ao local onde nascera, rever as pessoas de sua família que ficaram naquela aldeia indígena, em terras bolivianas, divisa com o Brasil. Filha de um passante pai alemão, trazia nos olhos a cor esmeralda, iluminando a tez escura. Pouco se lembrava de seus folguedos infantis, nas matas e rios de sua terra natal, quando era uma indiazinha livre e feliz, a não ser a viagem triste para São Paulo, com aquele estranho casal que, provavelmente, deixara alguns trocados com sua mãe. 
 
Enquanto as mulheres de lá teciam mantas e xales coloridos, ela aprendera a fazer deliciosos doces os quais vendia, em um carrinho, com compartimentos vedados, próprios para armazenar os produtos, nos lugares de muito movimento, onde as pessoas passam rapidamente e, às vezes, compram algo de sabor adocicado. Hoje em dia, tem uma vida confortável e tranquila, mas o percurso foi longo e doloroso.
 
Desde que fora retirada da aldeia, por muitos anos viveu praticamente escravizada, em situação degradante. Acometida de uma intensa saudade de sua terra e costumes, saiu furtivamente da casa. Pretendia retornar, mas inexperiente na cidade grande, foi roubada, ficando como um barco à deriva, até encontrar uma senhora anônima que a acolheu e lhe ensinou a técnica de fazer puxas, um melado esticado com as mãos que se corta em pedaços e quebra–queixo, doce, também, à base de açúcar e pedaços de coco fresco.
 
Pessoas fortes são resilientes. Ela não se acomodou. Tendo se casado com um homem de saúde frágil, assumiu a nova família que formara. Filhos saudáveis, bonitos, alegres tornaram sua árdua vida em um buquê de alegrias e emoções. Adeptos da doutrina espírita propagam atitudes modelares e palavras reconfortantes aos que os rodeiam. Usam os seus talentos para o bem. Ela adoçou os paladares de milhares de pessoas; eles adoçam a alma, humanizando crianças, jovens e adultos, tão carentes de afeição e solidariedade.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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