Durante os últimos meses, o povo brasileiro tornou-se grande destaque. Colocado no altar da Pátria, foi exaltado, venerado, respeitado, bajulado. Todas as preocupações voltaram-se para o povo. Seu clamor foi ouvido , suas angústias, seus problemas, suas carências foram dissecadas, analisadas, compreendidas e superadas com maravilhosas providências. O povo tornou-se rei, senhor, chefe absoluto, preocupação fundamental. A palavra povo esteve e ainda está na boca de todos os políticos, nos programas de todos os partidos, nas intenções de todos os candidatos. Viva o povo brasileiro! Salvem o povo brasileiro! Dêem ao povo brasileiro toda a honra e toda a glória!
Há algum tempo, eu presenciei a discussão entre uma autoridade constituída e um cidadão que reclamava o atendimento de um pedido qualquer. Na verdade, não era um pedido qualquer, mas sim um pedido que interessava ao reclamante e, propriamente, só a ele. O cara era daqueles chatos, chatos de doer. A discussão prolongou-se até o reclamante confrontar-se com a autoridade em questão lançando mão do seguinte argumento:
- Você não passa de um empregadinho do povo. Eu sou o povo e, portanto, você deve atender ao meu pedido.
Irritado com a provocação, o agente público rebateu:
-Você não é o povo coisa nenhuma. Você é uma parte mínima, inexpressiva e insignificante do povo.
E com esses dizeres, a autoridade encerrou a questão e o inoportuno reclamante ficou a ver navios.
Afinal de contas, o que é o povo? O povo é uma ficção, um conceito difícil de ser definido, de ser delimitado. O povo é muito mais do que um segmento, uma parte, uma categoria da sociedade.O povo não é formado só pelos operários, pelos industriais, pelos professores, pelos burgueses, pelos evangélicos, pelos católicos, pelos ricos, pelos pobres. O povo é tudo isso junto e muito mais. O deputado, ao ser eleito, não entra numa Câmara ou Assembléia para representar uma parcela da sociedade. A sua obrigação fundamental é representar o povo. Se, como vimos, a caracterização de povo é uma tarefa quase impossível, o pobre e desorientado deputado acaba perdendo o rumo e o sentido de sua representação e, em virtude dessa desorientação, passa a representar a si próprio como uma sublime encarnação do povo.
E, assim, viva o povo brasileiro tão cantado e decantado pelos menestréis malditos de nossa política.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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