Já tratei da ‘desconstrução de instituições’ neste Comércio ao falar da Petrobrás, do IPEA, do IBGE. Volto ao tema. A ‘desconstrução’ de instituições nacionais respeitáveis recrudesceu com o recente caso da PNAD-2013 e dos Correios. Na principal instituição brasileira encarregada da elaboração de índices de vários gêneros e recenseamento nacional, há tempos detentora de imagem positiva, aconteceu erro banal dos pesquisadores. Nos Correios, empresa pública de ilibada reputação, houve estranho caso de postagem de panfletos políticos sem a devida chancela, o que permitiria aferir a quantidade e cobrar do remetente o valor da remessa.
Não bastasse o caso Petrobrás, cuja cifra de desvio ascenderia a 10 bilhões de reais, vêm agora números não verdadeiros da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, posteriormente corrigidos. A verdade era diferente. Mesmo no caso mais simples — o do coeficiente de Gini, parâmetro usado para medir a desigualdade na distribuição de renda num país (varia entre 0 e 1 e, quanto mais próximo de zero, menor a desigualdade) —, a diferença entre o ‘mais positivo’ e o real era bem pequena, de 0,495 e 0,498. Ao divulgar dados corrigidos, o chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos disse que a queda das desigualdades ‘não é uma queda espetacular’.
Quanto aos Correios, trata-se de caso administrativo mas revelador de conveniências outorgadas a uns. Eu também gostaria de despachar ‘malas diretas’ sem chancela, mas não sou agraciado com benesses. O governo instaurou sindicância para apurar ‘erros’ do IBGE, mas admite que o tal procedimento adotado pelos Correios é prática usual para outros tantos clientes.
A verdade é uma só: aparelhamento destrói o conceito, a imagem que nossas instituições construíram e o respeito que merecem.
Vicente P. Oliveira
Economista — FEA/USP
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