Rodolfo é o nome do antigo relógio de badalo que fica na sala, na parede do fundo. Ele badala conforme a hora. Uma, duas, três, quatro e (ufa!) cinco vezes. Lá vai, são cinco horas e a meninada começa a chegar em casa. João Victor, o mais velho, não tem mais que oito anos; a mocinha é Gabriela; e o último que adentra pela porta é Pedro Henrique, um garotinho que mal fez dois anos e é lindo como um dia de domingo.
Rodolfo, o velho relógio ranzinza, fica irritado. Sempre tenta segurar seus ponteiros para ter apenas mais um minuto de tranquilidade.
Até que um dia...
“Plengo (1) Plongo (2) Plengo (3) Plongo (4) e ufa- respiração profunda-pausa- e o relógio quase roxo e sem ar bateu o último –Plengo (5)”
Cinco horas em ponto, e nada da porta ser aberta no rompante de sempre.
Rodolfo, de zangado começou a ficar preocupado, queria notícias.
“Plengo(1) Plongo(2) Plengo (3) Plongo(4) Plengo(5) Plongo (6) Plengo (7)”
Lá se foi mais de uma hora de atraso, mais de duas e algumas mais batidas ecoaram na casa vazia. O Relógio ligaria aos pais se tivesse braços e dedos para alcançar o telefone, falaria algo se tivesse boca. Ficou com sua rigidez de madeira maciça a esperar inerte sem nada que pudesse fazer. Trincou um pedacinho do vidro.
A porta foi aberta com zelo. A cena cortava o coração aflito do relógio.
Pedro Henrique, o danado, estava no colo do papai e usava gesso do joelho ao dedão do pé. Na certa havia caído de algum balanço ou tropeçado em algum degrau.
Todos os irmãos apiedaram-se do caçula.
O relógio nesta noite não bateu dez horas, estava tristonho e pensou calado com a sabedoria do tempo: _ Meu menininho, daqui a pouco você vai sarar.
Passou pouco mais de um mês, a casa estava brilhando de tão arrumadinha. Os olhos da mamãe sempre brilharam mais com a bagunça e o som de felicidade dos filhos.
A casa já cheirava ao feijão da panela de pressão quando entraram pela porta Pedro Henrique, Gabriela e João Victor, logo atrás vinha o pai. Gargalhavam sem nenhuma saudade do gesso gasto e desenhado que ficou no hospital para nunca mais.
Rodolfo fez muito barulho, batendo o badalo de um lado para o outro fora da hora certa. Pareceu defeito e não era. Ele estava muito contente e satisfeito, então nunca mais tentou segurar o tempo, pelo oposto. Daquele dia em diante o relógio deixou os segundos escorregarem por suas horas sem qualquer preocupação e os minutos ficaram livres para passar feito brincadeira.
“Plengo(1), Plongo(2), Plengo(3), Plongo(4), Plengo(5) SORRISOS.
_ Calma Rodolfo, agora eles trouxeram um cachorrinho.
Milla Souza
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