A política brasileira e a maioria de seus atores ainda não conhecem a diferença entre legalidade e moralidade. Ou melhor, conhecem mas não a colocam em prática; e descaracterizam ações que causam indignação na população como éticas, distorcendo o conceito e sua aplicação diária. A ética, única e universal, deveria ser obrigatória e pautar todas as ações dos ocupantes de cargos eletivos. Não é o que ocorre. Que se veja, só para citar um exemplo, o caso de deputados e senadores que contam com um plano de saúde que lhes permite até tratamento no Exterior, à custa do dinheiro do contribuinte. A sua utilização é legal, pois o plano existe, mas não é pautada pela ética, quando se sabe que milhões de brasileiros sofrem nos hospitais públicos à espera de um atendimento que pode demorar meses. E o que é pior: os deputados e senadores não pagam nem um tostão por tratamento diferenciado num País onde milhares morrem antes de conseguirem um simples exame ou uma internação de urgência.
Uma linha tênue separa a legalidade da imoralidade. Muitas ações podem até ser legais à luz dos códigos legislativos, mas são imorais. Um bom exemplo foi dado pela Comissão de Ética da Câmara de Vereadores de Franca, há cerca de um mês: considerou que o vereador Laercinho (PP), hoje candidato a deputado estadual, não feriu o código de ética do Legislativo ao oferecer vaca, dinheiro e até mudas de eucalipto para que um sitiante permitisse que a ampliação de uma estrada vicinal avançasse sobre sua propriedade. Neste caso, a ação ilegal, imoral e antiética nem foi considerada pelos integrantes da comissão. Mas o que alenta é que o arquivamento da ação não livra Laercinho de uma dor de cabeça: ele foi denunciado pelo sitiante ao Ministério Público.
Ontem, o também vereador (e candidato a deputado estadual) Pastor Otávio (PTB), durante a sabatina que o GCN vem promovendo com os candidatos a cargos legislativos, embolou-se todo ao não conseguir esclarecer suas posições sobre ética. Segundo ele, sair candidato e manter o cargo não é antiético por ser legal. Apenas Luiz Vergara (PSB) preferiu se afastar da Câmara para concorrer a deputado estadual. Aproveitar-se do cargo para auferir vantagens da exposição no pleito, como o fazem governadores, senadores, deputados e até a presidente Dilma Rousseff (PT), pode ser legal, mas faz a balança pender a seu favor em detrimento dos que não detêm cargos eletivos. É mais uma imoralidade de nosso sistema político que deveria ser extirpada, já que prejudica os demais candidatos.
Confundir o público com o privado, utilizando-se das vantagens que o cargo permite — inclusive embolsando indevidamente um dinheiro que deveria ser utilizado para o pagamento de bens e serviços — não é ético ou moral. Usar veículos oficiais em benefício pessoal também não. Por estas e outras razões, a classe política brasileira é mal avaliada. Depende do eleitor colocar candidatos comprometidos com a ética e com a moralidade na administração e na legislação do País. Enquanto não se mudar toda a relação destes entes públicos com um conceito genuíno de retidão, continuaremos a noticiar atos desabonadores que deixam o brasileiro indignado.
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