Ontem me lembrei de um discurso de Ruy Barbosa no Senado, em 1914 — “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar das virtudes, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. Parece falar do Brasil de hoje, não é?
Se é assim, talvez devamos aceitar que as crises atuais, de atuais nada têm. E se é preocupante a existência de pessoas com valores morais discutíveis ou portadoras de incompetência obsessiva em posições de poder, preocupa de verdade saber que o povo trata o assunto de qualquer jeito. Definitivamente nos acostumamos com o malfeito, como constatou Ruy Barbosa.
Muitos assistem fingindo que não é com eles a luta dos tribunais para barrar quem tem ficha suja. Mesmo os já condenados na forma da lei e que deveriam ser despachados sem discussões, apresentam recursos e teimam em continuar. Maluf, a exemplo, só foi cassado pelo voto de Minerva do presidente do tribunal, depois que seis juízes, apesar de provas irrefutáveis, empataram em 3 a 3. Eu disse juízes e não zés manés da esquina.
Em Brasília, o ex-governador Arruda, com ficha encardida de tão suja, aparece na frente nas pesquisas de intenção de votos! A todo momento surge na televisão cheio de sorrisos e promessas, enquanto se discute seu direito de se candidatar. E o mesmo se repete no Brasil: gente sem honra e má pede votos. Sofro ao imaginar que boa parte se reeleja. Ah, sim, tem os candidatos a presidente! As campanhas são um desfile de acusações, e o povo, anestesiado, parece não mais se importar Talvez ser podre seja o padrão! Mais que valorização da honra, da virtude e da honestidade, a verdadeira habilidade que desenvolvemos foi um infinito talento para a cara de pau. Se a carapuça não servir, não se preocupe. Não estou falando com você.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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