Adeus, bambino! A recompensa de uma vida dedicada


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Freis e fiéis cantam momentos antes de frei Berardo Paolino ser enterrado nos jardim no Convento de Santa Maria dos Anjos como desejava. Ele morreu aos 101 anos
Freis e fiéis cantam momentos antes de frei Berardo Paolino ser enterrado nos jardim no Convento de Santa Maria dos Anjos como desejava. Ele morreu aos 101 anos
No dia em que foi enterrado, o corpo de frei Berardo Paolino foi amparado o tempo todo por um grupo de franciscanos vindos de várias partes do Brasil. Eram mais de 50. A ligação de alguns deles, sendo uns muito jovens, com o velho Berardo era próxima. Ou viveram juntos ou foram iniciados por ele na Ordem de São Francisco. Em alguns casos, são 70 anos de diferença entre o início de um e de outro na religião. Berardo morreu na última quarta-feira.
 
É interessante notar como o tempo atingiu até mesmo uma organização secular, cuja mais reconhecidas marcas sejam o completo afastamento das coisas materiais e os votos de pobreza. Na Igreja de São Judas, onde frei Berardo foi velado em vigílias cheias de simbolismos e uma missa de corpo presente, com seu caixão no chão do altar, como prova de despojamento, muitos dos franciscanos mais novos empunhavam seus smartphones e câmaras fotográficas com os quais registraram tudo.
 
Frei Berardo entrou para a Ordem em 1939, ano em que a Europa já via explodir a Segunda Guerra Mundial, que só iria acabar quase sete anos depois. Contam que se recusou a deixar a casa do convento em que morava, mesmo diante da chegada de tropas alemãs, teoricamente aliadas dos italianos. Ficou escondido até que fossem embora.
 
Em 1947 veio para o Brasil junto com outros nove missionários. Do grupo original, era o único ainda vivo. Rodou por cidades do interior paulista e nelas foi deixando os fundamentos da Ordem que representava. 
 
A história já contada e recontada de sua vinda para a região de Franca, onde conseguiu, após muita insistência e a participação de vários irmãos, construir o convento de Santa Maria dos Anjos, em Ribeirão Corrente, é apenas um capítulo na vida de quem se dedicou plenamente à religião e mais ainda aos preceitos de São Francisco.
 
“Ele era um homem de oração e de muita leitura”, disse frei Flaerdi Valvassori, hoje em São José do Rio Preto. As leitura, segundo o religioso, incluíam São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, além de muita penitência. Flaerdi e Berardo se conheciam havia 30 anos.
 
Mesmo nos períodos em que esteve com a saúde mais abalada, o guardião do convento, frei João Boga, disse que a luz do quarto de Berardo permanecia acesa de madrugada. Às três da manhã era o horário que acordava para orar, todos os dias, sem pular nenhum.
 
A prática da oração diária, constante, aliás, era algo que cobrava de todos os mais novos. Para Berardo, quanto mais perto da televisão, mais afastados de Deus, segundo seu entendimento sobre os descaminhos que a vida moderna e cotidiana gerava nos religiosos mais novos.
 
Vários foram os que atestaram a alegria com que vivia. Que falaram de sua gargalhada. Para frei Mauro Oliveira, que passou pelo mesmo convento, era um exemplo para os mais novos. “Era um homem de ouvir, de aconselhar. Conhecia a todos pelo nome e se interessava pela vida das pessoas que o procuravam”, disse.
 
Despedida
Na quinta-feira passada, quando a cerimônia do ofício dos mortos foi realizada, com o seu caixão já no piso em frente ao altar da Igreja São Judas, foi possível notar a presença de umas cem pessoas. Ali ficaram em silêncio, observando o ritual metódico dos franciscanos.
 
No mesmo dia, à tarde, centenas de fiéis e amigos lotaram a igreja. Repleta, talvez fosse essa cena a prova maior do respeito e admiração que Berardo Biagio Paolino recebeu por seus 101 anos de vida.
 
Mesmo com as nove enormes coroas de flor que restavam no fundo da igreja, o caixão de Berardo era o símbolo da pobreza em que viveu. Nenhum adorno, nenhuma planta em seu interior. Apenas ele com suas sandálias, o hábito e um crucifixo dando voltas nas mãos.
 
Cânticos entoados, latim de volta aos microfones, o corpo é cercado pelos franciscanos. De lá, um quase cortejo levou o frei para o convento que ajudou a construir. Novamente muitas pessoas o esperavam.
 
A capela ficou pequena e a breve liturgia foi encerrada com muitas palmas. Mais uns 200 metros de uma caminhada lenta, bonita, musical, foi feita até o túmulo em um jardim nos fundos do convento, como sempre pediu para que fosse. Foi o primeiro ali enterrado. Para ele, que em suas broncas e brincadeiras sempre se referia a homens e mulheres como bambinos e bambinas, agora é a nossa vez de dizer: Adeus, bambino!

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