Mais de um adolescente de Franca e região é internado na Fundação Casa a cada dia. O número de internações no primeiro semestre deste ano mais que dobrou em relação a 2013. De janeiro a junho, 230 jovens da região foram apreendidos contra 94 no mesmo período do ano passado. Os d ados são da Vara da Infância e da Juventude.
Para o promotor de Franca, Augusto Arruda Neto, um conjunto de fatores pode justificar a alta na taxa de internações na Fundação Casa. “Pode ser um aumento do número de usuários de drogas com a ideia de que não faz tanto mal, talvez a polícia esteja trabalhando em uma mesma constante mas com um número cada vez maior de infratores”, comentou.
O promotor afirma ainda que para apontar possíveis soluções teriam que ser feitos “estudos antropológicos e sociológicos para estabelecer políticas públicas para o esse problema”.
Segundo o titutar da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes), delegado Djalma Donizete Batista, o aumento de internações tem um lado bom que significa uma maior rigidez por parte da Justiça. “A Vara da Infância e Juventude tem entendido e agido de forma mais enérgica para internar esses jovens que estão envolvidos com tráfico de drogas por equipará-lo a um crime hediondo. Dentro da Fundação Casa esses jovens terão acompanhamento, assistência psicológica para desistir dessa vida quando saírem da internação e muitos desistem. Temos que enaltecer este trabalho”, afirmou.
Histórias
Em Franca, Maria (nome fictício), de 50 anos, é uma das mães que vivem o drama entre a liberdade e a reclusão do filho adolescente. Há um mês, o jovem de 17 anos cumpre pena na Fundação Casa pela segunda vez em menos de um ano por envolvimento com o tráfico de drogas. Maria teme pela segurança do filho que chegou a ser agredido e quer que ele volte para casa mudado.
Maria disse que sempre que o filho saía, ela revirava o quarto dele à procura de alguma droga e mexia no celular dele para ter certeza do que afirmaram os policiais na primeira vez que o menino foi apreendido, em agosto do ano passado. Mas disse que nunca encontrou nada que o denunciasse. “Ele negou que estava envolvido com tráfico, disse que é apenas usuário e mesmo assim passou sete meses na Fundação Casa. Ele chegou a ser transferido para Batatais. Quando saiu, em abril, prometeu que iria mudar, queria arrumar serviço, mas não foi isso que aconteceu”, disse a mãe.
No mês passado, quatro dias depois de completar 17 anos, ele foi abordado por policiais e estava com maconha. Acabou apreendido novamente por tráfico. Como não tinha vaga na Fundação Casa, ficou oito dias numa cela improvisada na Cadeia do Jardim Guanabara onde, segundo a mãe, passou dificuldades.
Maria vive com o marido e na verdade não teve filhos. Ela é irmã do pai do adolescente. A mãe biológica sumiu de casa quando o menino tinha quatro meses de vida. Como o pai biológico não podia cuidar dele por ser funcionário de uma transportadora e viajar a trabalho, deixou com sua irmã Maria que o cria como filho. Eles vivem no Residencial Moreira Júnior, lugar conhecido pela insegurança e tráfico de drogas. A mãe adotiva acredita que o local influenciou nos rumos tomados pelo filho. “Más influências devem ter levado meu filho para esse caminho, sempre tentei aconselhar, até proibia ele de sair tarde da noite, mas não adiantou”, desabafou.
Sem ações efetivas do governo para tentar impedir que adolescentes entrem para o crime, os pais se sentem impotentes. João (nome fictício), 57 anos, não consegue controlar o filho de 16 anos que já ficou internado na Fundação Casa por três meses. O pai é curtumeiro, mas está atualmente afastado do trabalho por motivos de saúde e somente a mulher dele está empregada. O filho do casal é o caçula de três filhos e cresceu com problemas de comportamento. Sempre ativo, enfrentou seguidas expulsões de escolas por onde passou. “Em cada escola reclamavam de algo. Em uma quebrou um vidro, em outra quebrou não sei o quê. É difícil e não sabemos como resolver”, contou o pai.
Assistidos
Para tentar evitar a reincidência desses menores, a Esac (Escola de Aprendizagem e Cidadania de Franca) realiza um trabalho de orientação e acompanhamento, desde março deste ano, com os adolescentes em Liberdade Assistida (LA). Atualmente, a entidade ajuda cerca de 60 jovens em LA com idades entre 14 e 18 anos, com a oferta de cursos profissionalizantes no Senai, Senac, Pronatec e atividades socioeducativas. Segundo a assistente social e coordenadora da Esac, Fernanda Figueiredo Salomão, outros parceiros como Proreavi e Instituto Apoiar promovem cursos, grupos de integração social e acompanhamento psicológico aos adolescentes atendidos.
A Esac também faz encaminhamentos para o Caps daqueles que precisam de internação por dependência química, ajuda na rematrícula em escolas aos que se evadiram das aulas e tentam a inserção em alguma atividade que seja de interesse do jovem. “Procuramos meios para ocupar o tempo ocioso, para se qualificarem e para serem inseridos no mercado de trabalho. Eles estão acostumados com o ganho fácil, então tentamos fazer com que eles conheçam outras oportunidades”, disse.
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