Para os advogados, tanto a lenta melhoria do ambiente de trabalho quanto a pressão exercida pela vitória dos trabalhadores na Justiça podem forçar a indústria calçadista a adotar novos padrões operacionais ou desenvolver produtos livres de contaminantes, situações que poderiam levar ao fim das aposentadorias especiais.
Por enquanto, a situação está longe disso. Com ambientes internos altamente insalubres, trabalhadores de fábricas de calçados em Franca são diariamente atacados por problemas de saúde silenciosos, seja no contato com material tóxico, na temperatura e barulho excessivos, ou até pelo fato de ficar em pé várias horas seguidas, todos os dias,
Essa realidade foi a que Antônio de Macedo, 59, Olésio Donizete Figueiredo, 52, José Leonel de Souza, 61, e João Aparecido de Assis, 55, passaram em seus postos de trabalho.
Olésio, que passou 26 anos em fábricas, trabalhava como cortador, portanto exposto a barulho intenso, disse que alguns amigos chegavam a passar fitas colantes nos dedos para evitar que a química presente nas peças de couro atacassem ainda mais a pele das mãos.
Para José Leonel, até mesmo as máscaras, que têm a função de purificar o ar que o trabalhador aspira, acabam se tornando um grande problema no final do dia. “O ambiente tem muito pó e ela (máscara) não filtra tudo. Quando chega a tarde, a máscara gruda no rosto da pessoa, que vai ficando incomodada, nervosa e acaba tirando”, comentou Leonel.
Depois de 19 anos como montador, João Aparecido de Assis lembra quando deixava as tachinhas que usava para montar os sapatos manualmente - feitas de chumbo, material altamente tóxico e contaminante - presas à boca. “Depois, também como montador, ficava exposto a uma caloria de 240 graus, no rosto, o dia todo. Além da temperatura, tinha o cheiro do couro. Isso afetou minha condição respiratória. Hoje não consigo dormir sem medicamento”, afirmou Assis, que também sofre de varizes em decorrência dos longos períodos em que ficava em pé durante horas seguidas.
Obtido o benefício, o trabalhador não pode continuar desempenhando atividade semelhante, sob pena de ter a aposentadoria especial cassada pelo Instituto Nacional do Seguro Social.
Sindicato
A reportagem procurou pelo Sindicato das Indústrias de Calçado em Franca (Sindifranca) para comentar o assunto. O presidente da entidade, José Carlos Brigagão, limitou-se a dizer que as empresas vêm tomando medidas para melhorar o ambiente de trabalho e a saúde do trabalhador.
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