Criança, quando o circo levantava a tenda, queria seguir com a trupe; dizia meu pai que um desconhecido me levaria com um sorriso; eu me lembro de alegre disposição, pequenina, para arrumar malas e ir...
Toda vez que virei as costas para um caminho, na encruzilhada, segui sem olhar para trás, decidida e valente, entre angustiada e serena, morrendo de medo, tudo misturado. Na minha história, deslocamentos constantes, geográficos ou espirituais; descolamentos, da outra em mim, de mim na outra. Meu marido me diz, hoje, que, ao pôr o pé na estrada, minha alma voa...vai à frente.
Esse espírito de quem flutua, sem âncoras pesadas, está em mim noutras dimensões também: reviro, sem dó nem preguiça, meus conceitos e preconceitos, altero as receitas prontas em busca de algo novo para aprender. Aprender no sentido de desarrumar, desarmar o acomodado; faço faxina pesada nas certezas e convicções, deito fora o inútil, o estanque, o improdutivo, o que não me traz amplidão no sentir/pensar.
Psicanalisar, como vocação, significa reconhecer inacessíveis mundos e explorar fronteiras como paciente e como psicanalista. No divã ou na poltrona, a palavra e o silêncio no difícil serviço de libertar a alma de amarras desnecessárias.
Minha velha casa se recicla, seus espaços transmutam em novas ocupações. Até os jardins, de tempos em tempos, florescem diferentemente. Os cachorrinhos, recém-chegados, me desarmam do medo de ter dois ou três para criar. Brincam e se desenvolvem diferentemente dos criados feito filhos únicos.
Muita coisa permanece, todavia. As palmeiras imperiais crescem e crescem em volta da alta casa, a piscina já perigou virar horta, mas ainda azula para nenhum nadador.
Das janelas altas vejo que um vizinho limpou o telhado e ficou tão bonito e novo o seu telhado vermelho! (valeu ter empoeirado a casa semanas a fio). Os passarinhos fazem rodízios em volta do pé de romã e a trepadeira sapatinho-de-judia ocupou vastamente tetos das varandas, com lustres amarelo-ovo e vermelho-sangue pendurados, já não me faltam beija-flores de muitas cores, ao pé da cozinha.
O céu no mesmo lugar, o trajeto do sol muda pouco desde que cá estamos 22 anos na mesma casa, agora vazia de filhos, e cheia de cachorros e pássaros. O casal voltou a ser casal, como antigamente.
Tudo igual e diferente: a grande beleza da vida não está no que se perde ou no que se ganha; está no amoroso acolhimento aos ciclos inelutáveis, na alternância rítmica do que fica e do que vai.
Nem sempre sabemos do trânsito de pessoas e bichos e monstros e fadas e bruxas e belos horizontes; de súbitos abismos traiçoeiros, das quebradas do destino: do que, enfim, acontece de nos acontecer. “Prontidão é tudo”, diz Shakespeare.
A cadência dos passos pronta a seguir a música dos ventos, das poeiras, das fagulhas, dos orvalhos, dos dias e das noites, das passadas alegrias e das saudades do futuro.
Humildemente, aprendo a criar pausas ajuizadas em meio ao reboliço do samba-lê-lê na vida, e reitero: amém.
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de A alegria possível (2010)
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