Foi com certo desconforto que passei por algumas das páginas de contagem regressiva, o mais novo livro de Vanessa Maranha. Trata-se de uma história de angústias. Do personagem principal e daqueles que o cercam. A angústia está presente na narrativa de um sujeito que não encontra lugar no mundo; da infância à velhice.
Por parecer, em muitos casos, tão próximo, seu desenrolar vai fazendo buscar na memória uma tia nossa resignada, um parente esquizofrênico, alguém de maldade latente que esteve por perto.
contagem regressiva não é para iniciantes. Talvez, por influência de sua própria trajetória pessoal e principalmente profissional, Contagem Regressiva está repleto de citações e situações bem próprias da Psicologia.
Facilmente dividido em duas partes, é exatamente a partir de centésima parte que o livro toma outro corpo, nova vida. Na metade inicial, quando João, personagem principal, ainda se debate com os filhos e procura se agarrar no amor erótico, juvenil e rejuvenescedor idealizado com as enfermeiras da clínica em que se auto-hospedou, a autora busca ligações nem sempre compreensíveis à primeira leitura. De qualquer maneira não é difícil se enxergar em algum momento nesse homem perturbado. Na segunda parte, a leitura corre com maior fluidez.
Para o tipo de literatura que se pratica em Franca, contagem regressiva é uma exceção. contagem regressiva vale a leitura porque contrasta com essa névoa de pessoas alegres e bem dispostas, todas bem sucedidas, que tomou conta dos nossos perfis na internet. A vida, como sugere o livro, passa pelos olhos incríveis de uma criança e pela desesperança na velhice.
Paulo Godoy, jornalista
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