A mula Granfina


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Há fatos vividos na infância e que nunca se apagam de nossa memória, nos acompanhando pela vida toda. E há ocasiões em que os recordamos. Sendo de ‘boa’ memória, quando os revivemos acabamos por ser tomados das mesmas e intensas emoções que nos acometeram na época em que ocorreram. 
 
Conto um desses registros que me são caros. Na década de 60, um pequeno circo era periodicamente armado em minha terra natal. Se não me falha a memória, o nome era ‘Lesco-Lesco’. Era um circo humilde, lona de cobertura toda remendada, atrações repetidas. 
 
O espetáculo tinha duas partes. Na primeira parte também tinha uma divisão, suspense e comédia, além de apresentações de malabaristas, mágicos, trapezistas, palhaços, e a grande atração: a famosa mula Granfina! 
 
A segunda era reservada ao drama, com a encenação de peça teatral que levava os espectadores às lágrimas. Seguramente, a alternância entre o riso e o choro é a grande ‘sacada’ de um circo.
 
Porém, o ponto alto do espetáculo era mesmo a Granfina. Era uma mula de porte médio, pelagem escura, aparentemente dócil. Aparentemente. Bastava que alguém subisse em seu dorso para que ela, inapelavelmente, começasse a pular igual pipoca na panela.
 
O circo, embora pobre, oferecia generoso prêmio para quem conseguisse parar em cima de Granfina. Candidatos — inclusive mulheres —, eram muitos. A plateia ia ao delírio com os inevitáveis tombos. Pelo que sei, ninguém alcançou o feito e assim, o prêmio nunca chegou a ser pago.
 
Infelizmente, pequenos circos são, hoje, raridade. Em tempos de TV, internet e outras modernidades, só permanecem circos luxuosos, de atrações internacionais. 
 
Contudo, Granfina ficou eternizada em Minas Gerais. Até hoje, quando alguém mais antigo quer se referir a pessoa indócil, inacessível e de difícil trato, acaba usando a frase: ‘esse aí é pior que a mula Granfina.’
 
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
 
 
 

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