A escolha


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Qualquer um que tenha estudado moral e ética, certamente deparou-se com o ‘Imperativo Categórico’, criado por Immanuel Kant em 1785. “Imperativo”, segundo ele, pode ser entendido como “mandamento”. E “categórico” é o que não aceita dúvidas. Imperativo Categórico então seria um Mandamento Indiscutível, um princípio que você desejaria ver aplicado para todo mundo. Você vai ao estádio assistir a jogo de futebol, entra no embalo da torcida e decide fazer parte do coro que xinga o goleiro do time adversário, que é negro: ‘Macaco!’ 
 
Tá todo mundo xingando, pô! Estádio é lugar onde a gente xinga! Então, você recorre ao Imperativo Categórico: “E se aquele goleiro fosse eu? Me sentiria bem ao ser chamado de macaco?” Claro que não. Você decide não xingá-lo, e gostaria que ser seguido por todos. 
 
Ao decidir não xingar, abre mão de parte do ‘combate’ ao adversário. Afinal, o papel da torcida é motivar seu time e desmotivar o adversário. A única forma é gritando, vaiando, xingando! Quem acha que não é assim nunca pisou num estádio. Ao ser coerente com seus valores morais e não xingar, você deixa de tomar parte no rito. Se bobear corre o risco de não ser aceito pelo grupo. 
 
Tá certo, exagero, mas, é isso: xingo pois todos xingam e assim sou aceito. 
 
Esse é dilema da humanidade: agonizar com o prejuízo de fazer o que é certo, honrar a palavra, agir com compaixão... ou ser bem sucedido ignorando esses valores? Depende do que você considera ser ‘bem sucedido’. 
 
Negociar ambições, riscos e trocas consigo mesmo tem sido o grande desafio ao longo dos tempos. Quem vive seus valores agoniza diante de escolhas morais. Já quem deixa esses valores apenas pairarem sobre sua vida, não percebe que escolhas precisam ser feitas. Ai, chama o goleiro de macaco. Agora que já sabe o que é Imperativo Categórico de Kant, talvez reconheça as pessoas que não vivem de acordo com ele, escolha não fazer parte dessa tribo. 
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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