Bizarrices eleitorais


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A cada eleição aumenta o número de candidatos ‘paraquedistas’ ou então, digamos, folclóricos, que buscam um mandato apelando para a esquisitice, deixando de lado qualquer esboço de prioridades ou mesmo como pretendem abordar os grandes problemas nacionais caso sejam eleitos. Tudo começou quando apareceu nas eleições de 1989, as primeiras após o fim da ditadura, o médico cardiologista Enéas Carneiro (faleceu em 2007). Uma figura estranha: careca, usando óculos enormes antiquados e barba espessa nitidamente pintada de preto, candidatou-se à Presidência da República pelo partido que havia fundado, o extinto Prona (Partido da Reedificação da Ordem Nacional). No horário eleitoral gratuito, com apenas 17 segundos para apresentar suas propostas, aliava uma fala rápida e raivosa a um discurso inflamado e ultranacionalista, sempre fechando com o bordão “Meu nome é Enéas”.
 
Repetiu a dose em 1994, quando ficou em terceiro no pleito, à frente de políticos tradicionais como Leonel Brizola (PDT) e Orestes Quércia (PMDB), recebendo mais de 4,6 milhões de votos. Novamente em 1998, Enéas reaparecia na campanha à presidência, ficando em quarto, com mais de 1,4 milhão de votos. Antes de seu grande momento na política, o médico cardiologista ainda tentou ser prefeito de São Paulo em 2000, também sem sucesso. Em 2002, candidato a deputado federal, Enéas Carneiro obteve a maior votação da história brasileira para o cargo: cerca de 1,5 milhão de votos, marca que ainda não foi batida. Seu partido obteve votos suficientes para, através do sistema proporcional, eleger mais cinco deputados federais (mesmo com votações inexpressivas).
 
Foi necessário mostrar a trajetória do falecido político para esclarecer a razão de tanta bizarrice reunida no horário eleitoral gratuito. Depois de outro fenômeno nas eleições passadas, o palhaço Tiririca, eleito deputado federal em 2010 com mais de 1,3 milhão de votos ( o que permitiu colocar na Câmara mais quatro companheiros de partido que não teriam votos suficientes para se eleger), os partidos tentam, de todas as formas, emplacar um ‘puxador’ de votos, de olho na representação política no Congresso. Aí aparecem subcelebridades, ex-jogadores de futebol e figuras folclóricas, sem qualquer proposta a não ser a cara de pau.
 
Tudo isso é consequência de uma legislação eleitoral ultrapassada e falida, onde as emissoras de TV e de rádio, que dependem de publicidade para viver, são obrigadas a abrir mais de duas horas de sua programação, quase diariamente, para apresentar essa sucessão de bizarrices que, antes de transformar o horário eleitoral gratuito em peça de humor, o faz parecer um show de horrores. O quociente eleitoral é outra peça ultrapassada, criada no período militar para dar a vitória ao partido dos generais. Já está mais do que provado que, ao contrário de outros países, o eleitor brasileiro vota no candidato e não no partido. Assim, não há razão para que este instrumento permaneça. Quem sabe com uma mudança a propaganda eleitoral deixe de exibir as bizarrices folclóricas a que estamos submetidos atualmente?
 
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