Em uma de minhas palestras, recorro a Aristóteles: “Não se pode conceber o muitos sem o um.” Olho para grupo de pessoas e não consigo ver massa uniforme. O que vejo são vários “eus”, cuja soma de escolhas e atitudes determina o “nós”. Às vezes, um desses “eus” faz a diferença.
No livro Staring at the Sun, o professor Irvin Yalom, da Universidade de Stanford, diz que cada um de nós cria, geralmente sem consciência, círculos de influência que podem afetar pessoas por anos ou até gerações. E esse impacto pode ser passado para outras, da mesma forma que as ondas formadas por uma pedra atirada num lago. Dê uma olhada nos grandes movimentos da história. Um sujeito chamado César Zama, médico, político e escritor brasileiro que, provavelmente, você nunca ouviu falar, em 1890, durante elaboração da primeira constituição republicana, defendeu o voto universal para mulheres. Deve ter sofrido, ouvido gente dizendo para esquecer, que nada ia mudar. Abnegados aderiram. Em 1933, 23 anos depois da morte de Zama, as mulheres ganharam esse direito. Zama lançou pedrinha no lago: ploc! É assim que a maior parte das grandes mudanças acontece, a partir da iniciativa de poucos, os ‘ignorantes, bobos, loucos’. Os mais ativos convencem os menos, em trabalho de formiguinha.
Após duas falas que fiz sobre a importância do voto, ouvintes me disseram que decidiram não anular o voto. Joguei pedrinha no lago, as ondas chegaram e , agora, propagam a outros. Alguém jogou uma pedrinha antes de mim e as ondas me atingiram... Percebe?
Refine suas amizades. Procure gente que valoriza o pensamento, que puxa para cima. Jogue pedrinhas no lago. Se você que não enxerga luz no final do túnel, desistir é opção de fracos. Fortes insistem, escolhem o menos ruim agora para escolher outro menos ruim depois, em processo de depuração que um dia chegará ao bom. Jamais param de jogar pedrinhas no lago. Ploc!
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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