Mauro Iasi: ‘Medo do comunismo não existe. Quem assusta é a PM’


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Entre as propostas de Mauro Iasi está a reversão das privatizações e a estatização do sistema financeiro
Entre as propostas de Mauro Iasi está a reversão das privatizações e a estatização do sistema financeiro
Mauro Iasi é professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos fundadores do PT. Participou da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, nas eleições vencidas por Fernando Collor de Melo. Em 2006, foi candidato a vice-governador na chapa de Plínio de Arruda Sampaio (PSol). Agora, é candidato à Presidência da República pela PCB (Partido Comunista Brasileiro). Iasi veio a Franca fazer campanha ontem. Participou de debate sobre poder popular e a construção do socialismo no Brasil, se reuniu com estudantes da Unesp, visitou o Sindicato dos Sapateiros e órgãos de comunicação. Na sede do GCN, falou de suas propostas e do desafio de tentar conquistar o Palácio do Planalto sem coligações com outros partidos e com apenas 45 segundos no horário eleitoral. Não pontuou na última pesquisa de intenção de votos.
 
Por que os eleitores devem votar no senhor?
Estamos numa eleição que, além de propostas abertas ao futuro, é o momento de avaliar os caminhos escolhidos. Estamos há 20 anos seguindo um trilha que prometeu resolver uma série de problemas que continuam se arrastando. O PCB tem 92 anos de existência, partido que tem programas, uma leitura do Brasil e que não mede as propostas por pesquisa de opinião. Temos uma proposta de organização da sociedade brasileira para romper com a forma capitalista e com os limites que o mercado acaba colocando às demandas essenciais à vida. É necessário um novo caminho. Nesta discussão, é preciso ficar atento às falsas alternativas que aparecem para nos iludir.
 
Qual a prioridade do senhor?
Mudar radicalmente a forma política neste país. Não é possível governar para realizar as transformações necessárias mantendo o que chamamos de presidencialismo de coalização, uma armadilha que prende o presidente a uma governabilidade no Congresso Nacional com acordos políticos, que existem, exatamente, para evitar qualquer transformação profunda. Apostamos na democracia direta, o que chamamos de poder popular. É necessário que a população se organize, crie instâncias próprias para expressar sua vontade para que a gente possa impulsionar as reformas necessárias. Neste sentido, a desmercantilização da vida: garantir educação, saúde e transporte como direitos. Como são direitos, devem ser oferecidos de maneira gratuita pelo Estado. Propomos reverter as privatizações, estatizar o sistema financeiro e profunda e radical reforma agrária para que a riqueza pública seja investida no setor público para garantir os direitos. Nossa proposta é simples: aquilo que garante a vida tem que ser prioridade. Aquilo que é secundário, como exorbitantes lucros do sistema financeiro, vai ter que esperar.
 
A maior parte do eleitorado tem aversão ao PCB, tem medo de votar nos comunistas. Como é enfrentar esta rejeição?
Isso é uma coisa que, pela nossa experiência, tem ficado cada vez mais para o passado. São resquícios da guerra fria e um tipo de preconceito anticomunista que foi largamente difundido como preparação ideológica para o golpe militar de 1964. Aquilo que era uma guerra contra o perigo do comunismo abriu espaço, na verdade, para um regime totalitário que, este sim, era muito perigoso: torturou, matou muita gente. Estou andando pelo Brasil e posso dizer com tranquilidade que este medo não existe. Quem tem que ter medo dos comunistas são aqueles que, estes sim, tem razões para tanto, que são os grandes capitalistas, os grandes monopólicos e os latifundiários. O que as pessoas temem não é o comunismo, é uma forma de organização da sociedade extremamente perigosa, salário que não chega ao fim do mês, plano de saúde caríssimo, as precariedades na saúde pública, na educação e a insegurança. Quem tem assustado mais a população pobre é a PM. Os comunistas não causam nenhum tipo de espanto.
 
Como o senhor define a missão de manter um partido comunista em nosso País?
Uma das nossas palavras de ordem reflete bem isto. É muito difícil acabar com o partidão. A ditadura tentou, os regimes burgueses, logo que surgimos em 22, fomos colocados na clandestinidade, e sobrevivemos para se tornar a principal força política da esquerda, dos trabalhadores até os anos 60. A ditadura golpeou duramente o PCB e ele sobreviveu. Sofremos ainda um processo de liquidacionismo no início dos anos 90 com aqueles que acreditavam que não havia mais sentido uma plataforma socialista, revolucionária para o Brasil contemporâneo. Aqueles que saíram do PCB naquele momento com este discurso acabaram se tornando uma linha auxiliar da direita brasileira aliados ao PSDB, aos Democratas e, agora, embarcando nesta aventura sem sentido que é a candidatura da Marina Silva, que são aqueles que optaram pelo PPS. Apostamos na tradição histórica do PCB, no seu programa, na sua coerência e ficamos na oposição. Estamos organizados em todo o território nacional, com candidatura própria em dez estados e acreditamos que, as manifestações de 2013, confirmam nossa linha política.
 
Todos que entram em uma disputa querem ganhar. Levando-se em conta que uma vitória do PCB é pouco provável, o que o partido espera conquistar ao longo da campanha eleitoral?
A vitória para a gente é uma vitória que tem que ser matizada no nosso projeto histórico. As mudanças necessárias no Brasil são urgentes, mas temos que ter paciência. Surpresas acontecem, até o dia 5 de outubro disputamos estas eleições. A vitória que buscamos é capacidade da classe trabalhadora se organizar e interferir no jogo político. Ela foi sequestrada por um projeto que não é dela. Nossa missão é trazer temas essenciais que queremos discutir com a população e apostar na criação do poder popular. Isto passa pelas eleições de outubro e vai muito além. Nossa luta se alimenta menos do resultado eleitoral numérico e mais da nossa capacidade de tornar visível uma proposta, construir um bloco de esquerda capaz de ser uma alternativa de poder neste país. Nosso partido não se assusta com revezes eleitorais.

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