Água no deserto


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Trafegando pela Rodovia dos Tamoios, testemunho o dia a dia do desaparecimento da represa de Paraibuna. Em várias pontes, não vejo mais água. É uma amostra do que está acontecendo no Brasil. As termelétricas estão em operação para poupar represas e, mesmo assim, a situação piora. Em 2007 ouvi, no INPE, que o centro-oeste e o sudeste vão se tornar deserto, e que isso ocorrerá pelo desmatamento da Amazônia. 
 
Desde que a seca começou, ano passado, empenho-me em convencer assessores da presidente e ministros a financiarem iniciativas como coleta de água de chuva e energia solar ‘grid-tie’. Considerando que brasileiro é bom pagador e há quem investiria nisso, não entendo porque o governo dá dinheiro a Cuba, mas não empresta aos brasileiros. Há boas iniciativas no mundo. Pensando nas dificuldades da Etiópia, o arquiteto Arturo Vittori projetou torre que capta vapor de água do ar. Estrutura simples, feita de bambus ou juncos, forrada com malha de plástico, capta gotículas de orvalho que escorrem a uma bacia, gerando 30 litros de água por noite. A torre custa US$ 550. Poço com bomba elétrica custa 20 vezes mais. 
 
Já Joseph Cory, do Instituto Technion de Israel, construiu seu coletor como uma série de painéis montados em forma de pirâmide invertida. Esse coletor mede 30 metros quadrados e capta até 48 litros de água potável por dia. Cory inspirou-se nas folhas de plantas. Outro projeto, o de Helen Yang, da Universidade de Eindhoven, Holanda, em colaboração com a Politécnica de Hong Kong se apoia em revestimento sobre fibras de algodão, que absorve grande quantidade de água da umidade do ar, mais de quatro vezes seu peso. O tecido libera a água coletada logo que o sol nasce. 
 
E o Brasil, o que faz? Pouco. O BNDES deveria financiar painéis solares e cisternas, e investir em torres de ventos descendentes, que resfriam o local, umedecem e geram energia. 
 
Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)

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