Um calvário que revolta


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Nos últimos anos, pelo menos na última década, a obesidade tornou-se uma grande preocupação de profissionais, de endocrinologistas a nutricionistas (ou nutrólogos), mas ainda vem sendo negligenciada no sistema público de saúde, que não age com a celeridade que o problema exige. Mesmo com o SUS (Sistema Único de Saúde) proporcionando a portadores de obesidade mórbida a possibilidade da cirurgia bariátrica, a fila é grande — como a registrada em outros procedimentos, como transplantes de órgãos — e anda a passos lentos. A imprensa já divulgou a morte de pacientes que se encontravam à espera da intervenção.
 
É difícil não se emocionar com a situação do administrador Ronaldo Duarte Pimenta, 39. Pesando hoje cerca de 240 quilos, não conta com uma qualidade de vida que lhe permita desfrutar de seu dia com plenitude. Por causa do peso, precisou se afastar do trabalho, sofre de falta de ar constante, apresenta dificuldade de caminhar e é obrigado a dormir ajoelhado em um sofá. A saída é uma só: a cirurgia bariátrica. Como teve, segundo seus familiares, o procedimento negado pelo SUS, a solução encontrada foi rifar um carro e uma novilha para arrecadar recursos e pagar a cirurgia particular.
 
O que não se entende são os motivos do SUS negar-lhe o procedimento. É só olhar Ronaldo para ver que ele tem verdadeira necessidade de passar pela cirurgia para que possa voltar a viver. A obesidade, além de causar uma série de outros problemas, como diabetes, hipertensão e obstruções das veias e artérias que podem levar a problemas graves no sistema circulatório, impede que o administrador ande com facilidade. Se algo não for feito, em pouco tempo ele não terá mais condições de se movimentar, o que pode agravar ainda mais seu estado.
 
Internado em Franca, o administrador desabafa: “minha rotina atualmente tem sido me sentir como um inútil. Para tudo eu dependo da minha mulher. Ela teve que sair do serviço. Do jeito que eu estou não posso fazer nada, estou parado. Quero voltar a me sentir útil pelo menos”. A situação de Ronaldo espelha bem a de milhares de outros brasileiros que procuram a saúde pública e se quedam em filas intermináveis. É uma situação que precisa ser revista, urgentemente, para evitar que mais gente morra à espera do atendimento que o Estado é obrigado a dar.
 
Esta é mais uma situação que precisa de solução. E, como já dissemos na edição de ontem, depende de vontade política e coragem. O povo brasileiro já financia o sistema público de saúde ao pagar impostos sobre os seus rendimentos e tudo o que compra. Mas este dinheiro acaba sendo desviado, seja pela corrupção, seja para outros setores da administração para fazer frente aos salários da nossa inchada máquina pública. É preciso pensar naqueles que precisam e não podem arcar com o tratamento particular. Do contrário, estaremos condenando grande parte de nossa população à indigência. Ronaldo ainda encontrou uma fórmula para custear sua cirurgia. E quem não tem essa possibilidade?
 
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