Lares de Franca: Entre risos e confidências...


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Sextas-feira é dia de passeio e um  dos lugares favoritos é o Castelinho
Sextas-feira é dia de passeio e um dos lugares favoritos é o Castelinho
Aos fundos do Jardim Samello V, 20 senhoras e senhores dividem os ambientes dos pavilhões do Lar Eurípedes Barsanulfo. Entre academia, sala de TV, gramado de vôlei, refeitório e os próprios quartos, a varanda é um dos locais mais animados. A TV instalada ali perde muito de sua função, já que as risadas superam facilmente o som das cenas que exibe. A grande responsável pela “bagunça” é dona Maria Conceição. Ela não enxerga, mas sabe que suas piadas a tornam o centro das atenções. 
 
“O que é, o que é que tem a boca na barriga?”, perguntou ela à roda que se formou ao seu entorno. “É o umbigo!”, arrisca seu Expeditinho. “Não, você errou”, sentenciou ela. “É o fogão ‘de’ lenha, dona Maria”, acertou a charada o seu Zé Estevão. Satisfeita com as participações, ela continuou. “O tonto entrou na igreja e foi conversar com o padre. Quando ele foi embora, o padre falou: vai meu filho, com Deus, Nossa Senhora, São Pedro, São João e Santo Antônio. O bêbado montou ‘na’ bicicleta e logo caiu: “eu sabia que eu não podia carregar esse tanto de gente.” As risadas ecoaram.
 
Seu Manuel, que de trás da roda assistia, foi perdendo o acanhamento perante a presença do Comércio e resolveu participar. “Quem souber não fala não! Quero ver se ela responde”, desafiou a repórter. “Altas torres, belas janelas: abre e fecha sem por a mão nela.” Após a desistência da desafiada, piscou incessantemente dando dica para o acerto: “São os olhos!”. Ele sorriu e aplaudiu.
 
A fim de entrar na conversa, mas sem muita habilidade para as piadas, seu Natal resolveu mudar o teama da prosa. “Mas para que time você torce?”, e logo emendou: “Eu sou corintiano.” Cada um então foi revelando sua preferência e logo as confidências começaram. Um dia antes, toda a turma foi levada por voluntários a uma chácara próxima à cidade para um churrasco. “O Benedito e o Expeditinho tomaram cerveja!”, entregou alguém. Ambos confirmaram com cara de quem fez arte. Justa, dona Maria Conceição completou: “ninguém pode falar nada porque todo mundo bebeu!” Sem que percebessem, a gerente do Lar, Luciane Goulart, esclareceu piscando um dos olhos: “Era sem álcool.”
 
A conversa foi se alongando e muitos falaram de si. Dona Maria contou com orgulho que há um ano começou aulas de braile, na Sociedade dos Cegos. Assim como ela, o parceiro de artesanato, seu Benedito, passou a ter aulas para aprender a ler. “Cresci na roça e sou o mais velho dos irmãos. Eles estudaram, mas tive que ajudar meu pai na lavoura. Agora já escrevo o meu nome.”
 
Após a despedida, dona Maria reteve pelo braço a “reportagem”. “Eu quero ‘te ver’. Lu, me diz como ela é?”, disse à gerente, que prontamente fez a descrição. “Acho que você é bonita. Um dia você volta?”.
 
 
Rotina
 
A maioria dos idosos do Lar Barsanulfo se mostrou bastante ativa. Além dos passeios de toda sexta-feira, com destino escolhido por eles, são frequentes as “escapulidas” para um café na Praça Barão, lanches em pamonharias, churrascos e outras estripulias. Durante um passeio pelo Castelinho, parte deles aproveitou o tempo para caminhar e jogar bola, sob a supervisão de profissionais do Lar. A academia e o gramado com rede de vôlei instalados na instituição também não são meros enfeites. “Temos um ou outro interno debilitado, mas o restante é bem ativo”, disse a gerente da instituição, Luciane Goulart.
 
“Eles acordam por volta das 7 horas e já tomam o café e as medicações. Depois seguem para o banho e em seguida para a fisioterapia. Às 9 horas servimos um lanche e às 11 o almoço. Depois disso, eles têm um tempo livre. Alguns preferem dormir, outros conversar ou ver TV.” Para seu Antonino, a melhor opção é a leitura. “Todos esses livros são meus”, disse apontando para uma considerável pilha. “Gosto muito de ler sobre a doutrina espírita, mas também gosto de sentar na varanda para conversar.”
 
Às 13 horas a programação continua com as atividades da Terapia Ocupacional e a visita de uma professora, que se dispõe a alfabetizar dois dos internos. Na rotina também estão incluídas visitas médicas, atendimento com psicólogo, dentista e voluntários. Uma vez por mês, o salão de beleza é aberto e os vaidosos podem modificar o visual. 
 
Para manter seu quadro de funcionários, o Lar Eurípedes Barsanulfo conta com subvenção do Estado, do município, promoção de eventos e 70% da aposentadoria dos idosos. “Os outros 30% são depositados em contas abertas no nome de cada idoso. Esse dinheiro só é retirado quando é necessário arcar com algum exame médico quando, pela rede pública, a demora é grande e não há a possibilidade de espera.”

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