‘O governo colabora para o tráfico’


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Candidato diz que sociedade não está preparada para a legalização das drogas e defende a unificação das polícias
Candidato diz que sociedade não está preparada para a legalização das drogas e defende a unificação das polícias
O vereador e candidato a deputado estadual pelo PMDB, Delegado Radaeli, foi quem abriu as sabatinas da semana passada, na terça-feira. Bem preparado e seguro de suas convicções, defendeu a instalação de um programa de vigilância eletrônica contra o crime, o ensino integral nas escolas estaduais e o fim da progressão continuada. O candidato também  se posicionou contra a liberação das drogas. Radaeli, ao final da entrevista, ainda fez um apelo aos eleitores para que não deixem de votar.
 
Por que o eleitor deve escolher o senhor para representá-lo na Assembleia Legislativa?
O Radaeli tem uma trajetória de vida. Em 41 anos como servidor público, de guarda-mirim a delegado de polícia, adquiri experiência nos anseios da população e quando as ações sociais não dão certo, elas viram um problema de segurança pública ou de polícia. Ali eu adquiri esse know how. Tenho experiência para saber o que a população precisa e levar seus anseios para a Assembleia Legislativa de São Paulo.
 
O senhor hoje é vereador e se eleito deixará de cumprir metade do seu mandato. O senhor acha justo com os mais de 2.500 eleitores que votaram no senhor?
Essa pergunta já me fiz algumas vezes, mas como deputado vejo uma chance de ajudar bem mais a população de Franca e de toda a região, porque nós não podemos pensar apenas em Franca, mas em uma macrorregião. Como deputado estadual, esses anseios que eu tive como vereador e me senti sem condições de realizá-los, poderei levar para a defesa do cidadão de Franca e da região.
 
Estamos a 40 dias das eleições e sua campanha ainda é bastante tímida, se restringindo basicamente às redes sociais. O senhor não teme que isso o prejudique? E como o senhor pretende vencer com tão pouca movimentação?
Realmente, há uma dificuldade na captação de recursos. Eu sou assalariado; sou delegado de polícia. Há dificuldade de captação de dinheiro legal, que é o que estou fazendo agora. Mas todo mundo tem uma história e ninguém pode mudar sua história da noite para o dia. A campanha já está na rua, a partir dessa sabatina o pessoal já está se movimentando. Não timidamente, porque você tem que preparar a campanha para ter início e meio e fôlego para chegar ao final. E a conscientização dos cabos eleitorais escolhidos para que façam uma campanha diferente. Que peçam o voto para a pessoa, não joguem panfletos na rua. Que se identifiquem com o candidato.
 
Em seus discursos o senhor tem dito que o atual programa de ensino nas escolas estaduais, baseado na progressão continuada, é um crime. Qual outro modelo o senhor propõe para substituí-lo?
Afirmo e reafirmo, por isso que me identifico com o Paulo Skaf (candidato ao Governo do Estado), porque o sistema “S” de ensino, ensino em tempo integral, é uma alternativa para que possamos capacitar aquelas crianças e adolescentes que não tiveram oportunidade. Fui capacitado enquanto trabalhava. Então, como o ECA não dá essa oportunidade, temos que arrumar capacitação, tanto na educação, como profissional para esses alunos. O sistema que está aí é criminoso. Nós estamos perdendo uma geração, já perdemos uma geração e essa geração saiu da universidade sem capacitação correta para ser médico, delegado, advogado e outros profissionais. Então é um trabalho para a capacitação desses jovens, adolescentes em período integral, já que não se pode trabalhar, uma criança ou um adolescente.
 
Como funcionaria o modelo de educação integral que o senhor propõe? 
Um aluno custa para o Estado quase R$ 3 mil por ano. Um preso custa R$ 2,7 mil. A capacitação seria, no ensino básico ou fundamental, até os 12 anos, com todos os tipos de ciclos da educação e currículo escolar reforçado, aprender português, inglês, matemática, o básico. E, a partir dos 12 anos, a capacitação profissional desse aluno, para que ele saia com capacitação de educação e também de trabalho, próprio para o mercado de trabalho.
 
O senhor também diz que o salário pago aos professores é uma vergonha. Quais são suas propostas para melhorar o salário dos docentes da rede pública estadual?
Não é só professor, não. É uma vergonha o salário que se paga a um servidor público. Quando você aposenta, isso eu enfrento todo dia com investigadores, vejo com professores, em todas as áreas, a pessoa deixa de se aposentar no momento em que ela está mais precisando, com a saúde frágil, com problemas em família, acima dos 48 anos, deixa de se aposentar porque ela recebe metade da gratificação; ela vai perder na aposentadoria. Ou seja, quando a pessoa mais precisa do salário, ela perde a metade do seu salário. É plano de carreira. Eu acabei de dizer que o aluno custa R$ 272, se você terceirizar os presídios, através das PPPs, parceria público-privadas, você tira parte desse dinheiro e investe na capacitação, educação e valorização profissional dos professores.
  
Atualmente o governo mantém uma política de premiação dos professores com base no cumprimento de metas de avaliação. O senhor concorda com essa política?
Não. Nem meta de avaliação de professores, nem meta de avaliação que eles querem implantar na Polícia, porque aí você abre brecha para se fazer um caixa 2. Caixa 2 para conseguir cumprir a meta. Temos que dar salário e capacitação aos profissionais. 
 
Isso também aconteceria na Polícia?
Por que não? Você deixaria de qualificar, não hoje aqui em Franca porque posso afirmar com certeza, porque trabalho na inteligência, mas por que não? Você abriria a chance da pessoa chegar a receber esse bônus. Nós temos profissionais e profissionais, então você não pode perder essa perspectiva.
 
O senhor faz parte de um partido que é da base do prefeito, mas desde que assumiu sua vaga como vereador tem feito duras críticas a Alexandre Ferreira. Não é uma postura contraditória?
Pode ser que sim, pode ser que não. A crítica é pontual naquele momento sobre determinado caso. Não tenho dificuldades em relação a isso, não. Já tive no começo, com um problema de relacionamento, mas que foi sanado. 
 
Recentemente, em uma entrevista ao jornalista Marcelo Bomba, o senhor fez duras críticas ao acordo fechado pelo prefeito Alexandre Ferreira e a empresa São José. Na sua opinião, um acordo malfadado e errado. Apesar disso, o senhor votou contra a abertura de uma comissão processante para apurar as responsabilidades de Alexandre neste acordo. Por quê?
Votei favorável à abertura da CEI e, nesse intervalo, houve um acordo judicial. Posso discordar de uma coisa feita, mas não posso discordar de uma homologação feita na Justiça. Uma processante seria dar murro em ponta de faca, seria uma politicagem com o eleitor. Eu não faço politicagem com o eleitor. 
 
Por que você fala “dar murro em ponta de faca” ?
Porque houve um acordo feito. Porque a questão da São José você não pode pensar neste governo agora, ela vem de três governos anteriores, e com sérios problemas. A verdade é que você deveria fazer uma nova licitação ou acabar com as gratuidades e arrumar uma solução diferente ou subsídio da prefeitura para abaixar o preço da passagem. Agora, quando há um acordo judicial, posso discordar, mas tenho que respeitar porque já foi homologado. Se abre uma comissão processante é fazer o eleitor de palhaço.
 
E qual a avaliação do senhor sobre o preço cobrado na passagem de ônibus?
Muito alta, abusiva e tem que se chegar a um subsídio, ou acabar com gratuidade. Analisar as gratuidades, que são muitas, ou fazer uma nova licitação em lotes, para que outras empresas participem e peguem determinados lotes na cidade de Franca.
 
Qual o preço justo?
É complicado, porque o justo para você pode não ser para mim. Para população é bem menos da metade. 
 
Uma das reivindicações das manifestações contra a Empresa São José e o prefeito é a tarifa zero para o transporte público. Acha possível? O senhor é favorável?
Possível, agora não, mas sou favorável. Passa pelos impostos. Nós moramos no município, arrecadamos no município, temos problemas no município, mas a hora que esse imposto vai, só retorna pro município de 17 a 23%. Muito dinheiro para o governo estadual e muito dinheiro para o governo federal. Então, se houver um subsídio, dá para se fazer o tarifa zero.
 
Uma informação passada pelo senhor é que, nos últimos 20 anos, a região de Franca perdeu quase metade do efetivo da Polícia Civil. Segundo seus dados, há duas décadas eram 500 policiais e hoje são cerca de 250. Como o senhor vê essa redução?
Caótica. Quando você vê que um policial civil de Franca vê que a média de idade dele, para um serviço insalubre e perigoso, é de 46 anos de idade. Ele já deu tudo o que tinha que dar em sua vida, já está na fase de problemas e de descanso e você tem a metade de policiais que não se aposentam, porque eles perdem a gratificação e diminuem o seu salário, isso é um absurdo. Nós temos que capacitar, fazer mais concursos e seccionalizar. Não pode fazer concurso em São Paulo e mandar pro interior. A pessoa tem que estar agregada à sua comunidade.
 
Nos últimos anos, o número de crimes violentos praticados em Franca cresceu. Só nos seis primeiros meses deste ano, o número de roubos aumentou 36,5%. Na sua opinião, a redução no número de policiais colaborou de alguma forma para este aumento?
Em parte sim, mas você não pode culpar apenas o número de policiais, tem que culpar o investimento em polícia. Em Indaiatuba tem um investimento em videogeomonitoramento para que fosse implantado, lá deu certo, tivemos uma redução de 73% dos furtos. O 190 vira um call center, isso é um absurdo. Eu quero falar com um policial de Franca, que conhece a nossa cidade. Agora eu vou ligar em São Paulo, Ribeirão Preto que não conhece a realidade da nossa cidade? Isso é um absurdo.
 
O que o senhor pretende fazer em relação à questão do 190?
Guerrear, entrar na Justiça, mostrar porque existe um abaixo assinado pro governo  voltar atrás com essa posição. Existe uma lei que controla os atos do Governo do Estado de São Paulo. Vou guerrear pela nossa comunidade, em defesa do nosso cidadão. Porque a tendência, tenho péssimos prognósticos, é piorar, infelizmente é piorar.
  
Muitos políticos têm defendido a unificação das Polícias Civil e Militar como o caminho para melhorar a eficiência do combate ao crime. O senhor, que há décadas trabalha com segurança e vive a realidade do sistema, é a favor dessa unificação?
Há 24 anos entrei na Polícia sendo favorável à unificação. Um absurdo o sistema que estamos trabalhando em polícias separadas. Ilha não sobrevive, ou nós vamos unir forças, cada um na sua função trocando informações, tal qual como eu fazia lá no 4º DP, quando fui delegado. Pela manhã eu tomava café com os policiais que trabalhavam na mesma área do aeroporto, que era uma área crítica. O sucesso foi a redução do crime na área do Aeroporto, pelo menos naquela época.
 
Não é novidade que há resistência a essa ideia de ambos os lados. Como acabar com as diferenças existentes?
Falar com o ego é complicado. Mas há de se superar, somos policiais e somos capacitados, temos uma missão a cumprir. Mas o problema não está embaixo, no soldado, no cabo, no delegado do distrito, o problema está lá em cima, na parte dos superiores, nas pessoas que têm muitas estrelas, o pessoal lá em cima não quer perder onde ele está. Isso tem que ser superado, isso é urgente, é cobrada até pela ONU essa situação, já passamos do prazo para isso.
 
Qual a avaliação do senhor sobre o desempenho dos deputados em exercício por Franca?
É complexo falar de outros deputados, não gostaria de fazê-lo. Não vou falar de um deputado, vou falar de um contexto geral. Se eu estou entrando e colocando meu nome à disposição é porque não estou satisfeito com a atuação do Legislativo, do Executivo e do sistema em geral. Faço uma pergunta: você se sente segura em São Paulo? Eu, não.
 
Como o senhor avalia o trabalho dos seus colegas na Câmara Municipal? E qual nota o senhor dá para eles?
Complexo dar uma nota e analisar, porque cada um responde por seus atos. Teríamos que analisar a ação de cada colega e não dá para fazer e seria antiético eu fazer. Quem tem que fazer esse trabalho é o cidadão que tem que acompanhar os trabalhos do vereador, todos os dias, em todas as seções. Mas a avaliação que tenho da Câmara é razoável, não chega ao padrão que eu gostaria.
 
Radaeli, o senhor fez parte da CEI da Saúde que apontou diversos problemas na área. Chegou a usar a frase “A saúde de Franca está na fila de espera da UTI”. Como deputado estadual, o que pretende fazer para melhorar a qualidade do atendimento?
Temos que parar de fazer o povo acreditar na estadualização da Santa Casa de Franca, isso não vai ocorrer. Por que não? Porque você precisa mandar todo mundo embora e contratar através de concursos, não vai ocorrer, então não vamos brincar com o povo. A saúde é muito complexa, primeiro a tabela do SUS, que precisa ser reajustada. Tem dinheiro dos governos federal, estadual e do municipal também. Ou vamos fazer um consenso entre os deputados federais para mudar a questão da verba da saúde, os repasses e a tabela do SUS, ou na saúde nem vaga na UTI nós vamos ter esperanças mais.
 
Diariamente noticiamos casos de violência no trânsito local, em sua opinião, de quem é a culpa: do motorista? Da falta de sinalização? Da qualidade das vias? 
Todos são culpados, cada um tem sua parcela de culpa. A capacitação dos motoristas quando vai tirar a carteira de habilitação, as vias são horríveis, não há um planejamento para vias, você vai abrir uma empresa em determinado lugar você não faz o estudo para ver se o trânsito é compatível para que haja fluxo de trânsito conveniente para que aquela empresa sobreviva. Eu viajei para os Estados Unidos e lá você abre uma empresa só se tiver vaga em estacionamento, aqui não, você abre uma empresa e você não levanta o impacto que isso vai ter na localidade. 
 
(Pergunta do internauta Altair Matos) O senhor acredita que a legalização das drogas é a solução para a diminuição do tráfico e do número de usuários? 
A maconha já está legalizada. O que a lei 11.343 fala sobre o uso, qual a pena do uso? Admoestação: “ô fulano, vem aqui, você não pode fazer isso”. Não existe pena. Agora, o governo libera de cá e pune de lá e está colaborando para o tráfico de entorpecentes. O governo brasileiro, o legislador brasileiro está colaborando para o tráfico de entorpecentes. Sou contra a liberação de drogas no Brasil. Temos de ser francos em dizer, nós não estamos preparados. Quem tem família sabe o mal que isso causa em torno da família, e a família no Brasil, em Franca, está esfacelada.
  
(Pergunta do internauta Guilherme Kalel) Qual a sua proposta para melhorar a segurança pública no estado e como enfrentar a criminalidade, em especial o crime organizado, que hoje age dentro e fora das cadeias do nosso estado?
É um tema que eu gosto de debater, muito complexo e que passa pela educação. Primeiro nós temos um mal instalado que é a insegurança, a insegurança por falta de gestão, e temos um problema que precisamos cuidar a partir de hoje: educar, ensino em período integral. Já que o ECA proíbe o trabalho do adolescente ou do menor, que se dê educação. Aqui no Brasil é fácil, são leis de fadas para um país de bruxas, as razões são lindas, mas inaplicáveis. Então primeiro você tem que educar, unificar as polícias, unificar as inteligências policiais para que a informação seja rápida e precisa e prender o traficante, fechar as fronteiras do Brasil.

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