A realidade vivida pela família da lavradora aposentada Nilda Aparecida de Souza, 58, pode ser interpretada, no mínimo, como uma triste coincidência. De 2004 até o último sábado (16), ela perdeu três dos sete filhos, todos vítimas de acidentes de trânsito. Há poucos dias da última despedida - Nilda é mãe do tratorista Romário Vinícius de Souza, 26, enterrado no domingo após uma múltipla colisão seguida de capotamento no quilômetro 54 da rodovia Fábio Talarico - a aposentada têm se esforçado para manter a força e um breve sorriso no rosto que muitas vezes é tomado involuntariamente pelas lágrimas.
O primeiro filho a partir foi Renato de Souza, em 2004. Renato e seu cunhado vinham de Restinga para Franca trabalhar de bicicleta quando foram atropelados na rodovia Nestor Ferreira por um motorista que, segundo a família, estava embriagado. Duas cruzes passaram a marcar o local em que o acidente foi registrado na rodovia que liga Franca a Restinga. “A gente estava arrumando almoço para ir trabalhar na lavoura de café. Era umas cinco horas da manhã, quando um outro cunhado do Renato chegou e falou de uma vez que ele tinha morrido. Achei que não ia suportar a dor que senti”, disse a aposentada.
Mesmo sem acreditar que podia, Nilda suportou o sofrimento e seguiu cuidando dos demais filhos e netos até que sete anos se passaram e ela foi obrigada a conviver novamente com a mesma dor. Reginaldo Júnior de Souza, 25, conhecido como Bolinha, seguia pela Rodovia Vicinal Moacyr Pínola, em São José da Bela Vista, quando chocou a moto que dirigia em uma árvore de doze metros de altura que caiu sobre a estrada e morreu.
O acidente aconteceu no início da noite do dia 11 de abril de 2011 após uma forte chuva de vento e granizo atingir Franca e região. Assim como Renato, Reginaldo morreu na hora. “Me avisaram que o Reginaldo tinha sofrido um acidente e estava no hospital, mas ao sair de casa e ver a multidão, eu senti que ele já estava morto. Meu coração sangrou e coração de mãe não se engana”, contou.
A terceira
No início da noite do último sábado, o coração da aposentada voltou a sangrar. Seu filho caçula, Romário Vinicius de Souza, 26, saiu de casa por volta das 11 horas com destino a uma chácara às margens da rodovia Fábio Talarico para, segundo Nilda, jogar truco. Durante o retorno para casa, em São José da Bela Vista, um acidente acabou interrompendo a vida de Romário e Mateus Aparecido Cândido Alves, 25, que dirigia o Gol que se chocou com um Honda Civic, que vinha na pista contrária e fazia uma ultrapassagem.
O Gol e o Civic bateram lateralmente. Com o impacto, o primeiro rodopiou na pista várias vezes e atingiu com violência a frente de uma caminhonete F 250, de Frutal (MG). Testemunhas ouvidas pelo Comércio no local do acidente afirmaram que o carro estava emparelhado em altíssima velocidade com uma Saveiro, que desapareceu após o acidente. A família de Romário diz saber quem estava dirigindo a Saveiro e não se conforma com a fuga.
“Eu sempre ligava quando ele saía de casa. Não sei o motivo, mas no dia que ele morreu eu não liguei nenhuma vez. Só tive notícias quando uma menina chegou correndo, gritando que tinha acontecido o acidente. Ela não disse que tinha sido fatal, mas pelo jeito que falaram eu já senti que tinha acontecido o pior”.
A aposentada morava com o filho caçula e o marido em São José. Com a morte de Romário, eles se mudaram para Restinga, onde seus outros quatro filhos, três mulheres e um homem, moram. É lá também que estão enterrados seus filhos. “Vou ficar aqui em Restinga porque lá (São José da Bela Vista) agora, sem ele, é muito difícil. Além do mais, meus outros filhos moram aqui. Era bom morar lá, eu gostava, mas como dizem nem tudo é como a gente quer. Agora é só a saudade dos três,” disse Nilda, enquanto lembrava dos filhos e as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
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