‘É dolorido demais ver a minha neta crescer sem a mãe ao seu lado’


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Júlia Cristina, Maria Marta e Keylla Cristina com a foto de Kelly, que morreu após passar diversas vezes por atendimentos no PS
Júlia Cristina, Maria Marta e Keylla Cristina com a foto de Kelly, que morreu após passar diversas vezes por atendimentos no PS
Dor, revolta e luta por justiça. Esses são os sentimentos comuns às famílias dos sete pacientes que morreram após passar por atendimento na Rede Pública de Saúde de Franca. Para os parentes, eles foram vítimas de descaso e negligência. Com as mortes, pais, mães, filhos, irmãos, mulheres e maridos se viram obrigados a ter como companhias a saudade e a tristeza. Para os familiares, a saudade é dolorida, a ausência angustiante e o sentimento de impotência o mais difícil de lidar.
 
Em novembro de 2013, Kelly Cristina de Souza, de 27 anos, morreu depois de passar diversas vezes pelo Pronto-socorro Municipal e ser operada na Santa Casa de Franca. Ela deixou mãe, irmã e uma filha de apenas 9 anos. A menina, triste e calada desde que se despediu da mãe, a vê apenas em sonhos. “Minha neta não fala muito sobre a mãe, mas esses dias veio me contar que tinha sonhado com a Kelly. Ela disse que falou ‘Minha mamãe!’ e a Kelly respondeu ‘Minha filhinha!’. Me deu um aperto no coração. Está sendo dolorido demais viver sem a minha filha e ver a minha neta de apenas 9 anos crescer sem a mãe ao seu lado”, disse a mãe de Kelly, a auxiliar de cozinha Maria Marta de Castro. A família pede indenização à Prefeitura de R$ 250 mil por danos morais.
 

Silson Ribeiro mostra a foto de Luara Prietro, morta aos 25 anos
 
O empresário Silson Ribeiro também enfrentou a morte precoce da filha. Luara Prieto Ribeiro, se foi aos 25 anos. Morreu em plena juventude após um verdadeiro calvário. Faleceu em janeiro depois de passar oito vezes pelo PS e duas cirurgias na Santa Casa.
 
Desde então, oito meses se passaram, mas o empresário afirma não ter conseguido recompor sua vida. Silson não consegue aceitar a ideia de um pai enterrar um filho. Pela lei “natural” da vida, espera-se o contrário. “É muito difícil perder um filho. A falta que ela faz é grande, para mim e para a família toda. Minha filha morreu por erro médico e isto é fato.”
 
A vida da caseira Lúcia Modesto de Souza também foi interrompida, segundo seus familiares, devido a negligência na área da Saúde. Ela morreu em 28 de maio, nove dias após realizar uma cirurgia de vesícula, por intermédio da Prefeitura de Franca, na Santa Casa de São Joaquim da Barra. Ela aguardava uma nova cirurgia na Santa Casa de Franca quando morreu, aos 51 anos.
 
Lúcia era o esteio da família. Com sua partida, as vidas de seu marido, dois filhos e um neto se transformaram. O filho mais velho, Adriano Modesto, era o que mais dependia da mãe já que vive sobre uma cadeira de rodas. Ela o ajudava diariamente nas tarefas e o confortava. Com sua ausência, Adriano se viu obrigado a mudar de casa, assim como seu pai que foi morar com o filho caçula, Samuel Modesto, para ajudar a cuidar do neto que antes ficava sob os cuidados de Lúcia. “Dependíamos dela para muitas coisas, sem falar na saudade e na imensa falta que ela faz”, disse Adriano.
 

Eliana da Costa Andrade e Valdevina Bernardes Costa Andrade, irmã e mãe de Valter Júlio da Costa, que também morreu
 
Assim como Lúcia morreu aguardando uma nova cirurgia, a família do pedreiro Valter Júlio de Andrade alega que ele também morreu sem atendimento na Santa Casa. Com quadro de pneumonia e após três paradas cardíacas seguidas, o pedreiro não resistiu. Sua morte ocorreu em junho deste ano após esperar oito horas por uma vaga no CTI.
 
Assim como a família das outras vítimas, a mãe, irmãs e filhos de Valter sofrem com sua ausência. Valdivina Andrade disse que pensa no filho a cada segundo e está em depressão. O filho caçula do pedreiro tem apenas três anos e ainda não entende o que aconteceu, mas o mais velho, de 9 anos, foi ao velório de seu pai e recebeu como explicação que Valter virou uma estrelinha. No primeiro Dia dos Pais sem Valter presente, eles foram para a casa da avó paterna, e todos que lá estavam sentiram a falta do personagem principal. “O mais velho fala bastante e diz que não tem mais o pai. Contamos que o pai morreu e foi morar junto com o papai do céu. Achamos melhor para depois ele não criar uma imagem de que foi abandonado pelo pai”, disse a irmã de Valter, Eliana da Costa Neto.
 
Outros casos
O Comércio também entrou em contato com a família de Clésia Novais que morreu em fevereiro. Ela tinha diabetes e foi medicada com glicose no Pronto-Socorro “Álvaro Azzuz”. Clésia deixou marido e uma filha de apenas dez anos. Seu marido, o servente William Cabral Pinto disse estar sofrendo com a perda da mulher, mas preferiu não falar mais sobre o caso.
 
A reportagem tentou contato com Karina Fagundes, mulher do frentista Jean Carlos da Silva, 39, que morreu em 31 de maio, após passar pelo PS no dia anterior com dores no peito. Ele teve alta com o diagnóstico de “crise de ansiedade”. Com a morte de Jean, Karina ficou sozinha com dois filhos, de 12 e 6 anos, e grávida do terceiro. Na semana passada ela passou mal e não pode falar com a reportagem, mas nos dias próximos à morte do marido, tinha demonstrado sua indignação. “Trataram meu marido como um cachorro”, disse Karina, que na época havia conseguido uma consulta particular para Jean após ele ter tido alta do PS, mas só para o dia seguinte. Não houve tempo. 
 
Investigação
Todos os casos estão sendo investigados. O Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) informou que as apurações estão em “fase de instrução” e não forneceu detalhes sobre os processos. A assessoria da Prefeitura de Franca informou que aguarda os relatórios das sindicâncias para incluir nas apurações que está realizando. 
 
A Câmara Municipal concluiu no dia 8 de agosto o relatório da CEI (Comissão Especial de Investigação) da Saúde. O documento considera que o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) cometeu improbidade administrativa, pois, segundo o texto, nada fez mesmo sabendo dos problemas na Rede Pública de Saúde e propõe a abertura de uma Comissão Processante de Cassação contra ele. É previsto que o pedido da CP seja feito nesta terça-feira, 19. O presidente da Câmara, Jépy Pereira (PSDB), disse que será colocado em votação caso seja apresentado por algum vereador ou cidadão.

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