No Lar São Vicente, um amor para recordar


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Nelson Caetano em momentos de passeio e demonstrações de seu amor eterno pela mulher Lurdinha, que vive no Lar São Vicente de Paulo
Nelson Caetano em momentos de passeio e demonstrações de seu amor eterno pela mulher Lurdinha, que vive no Lar São Vicente de Paulo
Nas manhãs de todos os dias, Nelson Caetano espera pelo ônibus que o leva sempre até sua Lurdinha, que há quatro anos vive no Lar Vicente de Paulo ao lado de outros 34 idosos. Separados da mesma casa pela debilidade advinda dos anos, o aposentado segue firme no propósito de estar ao lado da mulher com quem se casou há 49 anos. Diagnosticada com Alzheimer, Lurdinha não reconhece mais o homem de sua vida, mas Nelson não tem tanta certeza sobre a falta de memória de seu coração. “Tudo se resume a quatro letrinhas: a, m, o, r. Dizem que ela não se lembra de mim, mas, às vezes, quando converso com ela e a chamo de minha querida, de meu amor, ela aperta a minha mão. Acho que, lá no fundo, ela sabe que sou eu”, disse, durante uma visita do Comércio ao Lar.
 
Aos 83 anos, Nelson, que possui casa própria e mora com uma de suas duas filhas, diz pensar na possibilidade de em um dia mudar-se para o Lar. “Aqui é bom de se viver. As enfermeiras cuidam muito bem de todos eles e fiz amigos aqui dentro. Converso com todo mundo”, disse.
 
O grande desejo, na verdade, é estar mais próximo da “menina” que conheceu na juventude, de bobes no cabelo a cuidar dos irmãos. “Me lembro até hoje do almoço que ela preparou. Galinha, nhoque de mandioca e salada. Fui até a ‘roça’ onde ela morava interessado em vender produtos agrícolas, quando era representante. Naquele dia, conheci meu sogro e meus cunhados”, relembrou. “Hoje ela não fala mais, nem se movimenta, mas continua linda.”
 
O ambiente do Lar, que existe há 109 anos em Franca, é convidativo. Da varanda, os idosos mais ativos aproveitam a visão do jardim para “papear”. Um grande frequentador das rodinhas é seu Zé, que dedilha em sua viola canções antigas, de um tempo compartilhado com os moradores da rua Frederico Ozanan. “Gosto do Tunico e Tinoco. Os sertanejos de hoje em dia não gosto não.” Noutro canto, não muito longe dali, uma pequena turma produzia telas de muitas cores e cenários paisagísticos. Conduzidos pela artista plástica e voluntária Nívea Rossano, o assunto girava em torno da exposição que a instituição promove a cada dois anos para a venda dos trabalhos produzidos pelos idosos. “Aquelas telas ali, com borboletas em alto relevo, são minhas. Tinha outras por aqui, mas foram vendidas! É muito bom quando fazemos as exposição”, disse dona Cidinha, artista que vive no lar e há sete anos descobriu a paixão pelas tintas.
 
 
ATIVIDADES
 
O dia para os idosos do Lar São Vicente começa ceda. Entre as seis e sete horas, os internos mais dispostos já iniciam o seu. Após o café da manhã, se envolvem em atividades ocupacionais e conversas com a assistente social. “Temos uma rotina ativa. Fazemos um trabalho para reforçar os autocuidados, como tomar banho, se pentear, e também oferecemos oficinas de jogos; eles gostam muito do bingo e seus brindes”, disse a assistente social Marcella Inocêncio.
 
Antes do almoço, que é servido às 11 horas, os idosos ainda degustam um lanche, para ativar as energias. “No almoço, lançamos o programa Bom Apetite, onde montamos um self service para que eles mesmos possam se servir e escolher o que querem comer”, contou Marcella.
 
Com a principal refeição feita, seguem para um descanso. “Alguns optam pela TV, outros pela cama e há os que ficam conversando na varanda.” Por duas vezes na semana, um educador físico cedido pela Prefeitura promove caminhadas e outras atividades após o descanso. Há ainda as sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, grupos de convivência com acompanhamento de psicólogo. “É um momento que usam para trocar vivências e relembrar os tempos de juventude. Há ainda momentos voltados para a música.”
 
Antes que o dia termine, são servidas ainda outras três refeições. Separados em quartos que comportam dois ou três internos, a proposta da entidade é que não deixar que se perca a individualidade. “Cada um tem seu armário e suas próprias roupas. Em seus quartos, eles guardam aparelhos de som, TV e objetos pessoais, como porta-retratos”, disse o presidente do Lar, João de Resende.
 
Uma das alas que despertam muito o interesse dos idosos é o pequeno salão de beleza montado na instituição. Ali, voluntários promovem corte de cabelos, barba e manicure. Festa para os aniversariantes do mês, natais, comemorações juninas, forrós aos fins de semana, passeios externos e cafés com familiares também são promovidos pela entidade.
 
Para manter todos os funcionários e serviços, que também incluem atendimento médico e quadro de enfermagem, o Lar São Vicente conta com a ajuda de voluntários, renda de imóveis próprios, renda com as salas de velório, doações, contrapartida do município e, quando possível, dos idosos.

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