'Legalizar drogas é aumentar o controle', diz candidato Ulisses


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Com 26 anos de idade, Ulisses Pinheiro é professor de História e Sociologia em escolas da rede particular de ensino
Com 26 anos de idade, Ulisses Pinheiro é professor de História e Sociologia em escolas da rede particular de ensino
O candidato a deputado estadual pelo PSol, Ulisses Pinheiro, abriu na última terça-feira, 12, a série de sabatinas promovida pelo GCN nestas eleições. Bem articulado, defendeu a legalização de todo e qualquer tipo de drogas como forma de combater o tráfico, a desmilitarização da Polícia e a taxação das grandes fortunas. Sobre sua campanha, disse que espera vencer com a ajuda de apoiadores e voluntários. Veja o resumo do que foi a entrevista de Ulisses. 
 
Por que o eleitor de Franca deve escolher o senhor para representá-lo na Assembleia Legislativa?
Há uns bons anos participo de movimentos sociais, que eu acredito que é a melhor maneira de ter uma participação política popular. Participo do “Fora São José” (contra a empresa de ônibus) e participo do “Fora Alexandre” (pelo afastamento do prefeito). Através dos movimentos e da minha participação em sala de aula percebi que era fundamental a participação na política mais direta. Simpatizante do PSol, entrei e me tornei candidato porque conheço a forma que trabalhamos em campanha; de uma forma coletiva, democrática, desde o estudante ao trabalhador, dos mais jovens aos mais velhos. Sempre consultamos a população, no momento de contar a nossa proposta, diferente do que acontece com muitos candidatos, que durante a campanha “abraços e apertos de mão” e depois da vitória a gente mal vê nas ruas. Nossas propostas são claras e objetivas. A primeira delas é segurança pública, com a construção de direitos sociais, que passam pela educação, pela saúde, pela revisão do sistema prisional brasileiro, pela legalização das drogas e pela desmilitarização da polícia.
 
O senhor tem apenas 26 anos. Nunca ocupou nenhum cargo eletivo, nem tem experiência em gestão pública. Filiou-se ao PSol há pouco mais de um ano. Em Franca, outros 10 candidatos também querem uma vaga na Assembleia Legislativa. Entre eles, políticos com muitos anos na vida pública e conhecidos da população. Como pretende vencê-los?
Nosso principal diferencial é a forma de como a gente faz campanha, não recebemos um real de empresas, também não oferecemos um real para que os jovens panfletem, levem as bandeiras; se vocês virem alguém entregando panfletos nossos é porque eles acreditam no que eles estão fazendo. Fazemos uma campanha que as pessoas acreditam por conta de um ideal, não por conta da grana. 
 
O que pensa de campanhas como a Voto Nosso, organizada pela Acif, que defende, por exemplo, o voto nos candidatos com maiores chances de se elegerem?
Já pontuei contra o Voto Nosso, porque estava um pouco perigoso. A gente, se seguir esse rumo, acaba aceitando uma política de troca de favores. A gente deve votar em um candidato da região se ele apresentar pautas interessantes pra todo o Estado. 
 
Não seria mais fácil para um candidato que conhece a realidade de Franca ser eleito para tratar dessas realidades? 
Isso é perigoso, porque apesar de ser francano, gostar muito da minha cidade, defendê-la em todas as esferas, sei que não podemos esquecer o Estado. Se sou representante do Estado é perigoso que eu represente apenas algumas cidades. Nem toda cidade consegue ser representada, elas serão esquecidas? É natural que o candidato tenha maior diálogo, que frequente as ruas de sua cidade, no entanto, não podemos esquecer de todas as regiões do Estado. 
 
Se o senhor for eleito, vai advogar por Franca ou pelo Estado todo?
Pelo Estado todo, mas terei um debate muito maior com as pessoas de Franca.
 
O senhor participa das manifestações populares. As considera uma forma mais eficaz de promover mudanças? Como o senhor avalia o uso de violência nessas manifestações?
É fundamental que a população vá às ruas. O “Fora Alexandre” e a luta pela tarifa zero são importantes, assim a população consegue participar. Em 2013 por que a tarifa não aumentou? Porque a gente foi pra rua, fez pressão. Sobre a violência, não participamos desse processo, não faz parte de quem organiza o movimento. Mas pergunto: aquele jovem que está na periferia, excluído da educação, saúde e transporte, o que esperar dele, quando ele vem até o Centro protestar? Não apoiamos a violência, mas é complicado condenarmos uma parcela da população que é esquecida. Sou contra, mas não criminalizo.
 
Então o senhor acha justificável, por exemplo, os Black Blocs?
Não acho justificável, só que temos que ter uma visão política que vai além dessa ideia dos bonzinhos e dos maus. Eles estão lá por um problema social, não vai ser com polícia que vamos resolver o problema dos black blocs, e da juventude esquecida, vai ser com políticas sociais. 
 
Como o senhor avalia o resultado da manifestação contra o aumento da tarifa do ônibus em Franca?
No ano passado conseguimos barrar o aumento, nesse ano não conseguimos, mas continuamos na luta. Não podemos desmobilizar porque houve o aumento, a luta é extensa, é por direitos, não só por alguns centavos.
 
Uma de suas propostas é a desmilitarização da polícia. No que essa medida é importante?
A medida passa por um processo de segurança pública, porque hoje a grande responsável pela violência no Estado de São Paulo é a PM. Não queremos retirar as armas da polícia que vai enfrentar o bandido, mas da polícia de trato cotidiano, da ronda escolar, daquela que vai organizar as manifestações nas ruas.
 
A saúde pública é motivo de reclamações constantes da população. O que o senhor pretende fazer para melhorar esse quadro?
Precisamos repensar a saúde em todo o Estado. Não é dada a devida atenção ao atendimento primário, à prevenção. Esperamos a pessoa ficar doente, precisar de uma cirurgia para darmos atenção à saúde. Precisamos aumentar investimento na saúde e atender as necessidades e pautas trabalhistas dos funcionários da saúde.
 
Voltando para o assunto de segurança pública, a PM centralizou as ligações do 190 da região, em Ribeirão, o que gerou queixas da população. Qual sua opinião a respeito?
Isso é muito preocupante, porque uma pessoa que atende lá não tem a mesma percepção de uma pessoa que está aqui. Eu gostaria até que vocês fizessem essa pergunta aos nossos deputados estaduais. Como eles, que são da base do governo, deixam que isso aconteça? 
 
Como o senhor avalia o trabalho dos atuais deputados por Franca?
O político deve ser a cara do povo, não é o que acontece. Vemos as caras dos nossos representantes quando estamos em uma rodovia e ela foi recapeada, por exemplo. Nós achamos que as pautas dos nossos representantes devem ser feitas através da radicalização da democracia, o povo deliberando. Que conselhos municipais, estaduais não apenas opinem, mas deliberem.
 
Em julho, o presidente do Sindifranca, José Carlos Brigagão, sentenciou que o setor deve fechar o ano com 5 mil vagas a menos. Quais suas propostas para ajudar os calçadistas?
Defendemos repensar a tributação do Estado. Sabemos que o sapato em Franca não é um problema apenas municipal, é um problema federal e estadual, é uma questão de guerra tributária entre os Estados. Hoje se cobra muito sobre os produtos básicos, o que deve ser zerado para que a população tenha maior acesso. Daí a taxação das grandes empresas. Também achamos que deve ser feito um investimento em tecnologia e no trabalhador.
 
As pautas de tributação, que o senhor citou, são pautas federais. E o senhor é candidato a deputado estadual. Como o senhor contornaria isso, já que o senhor não teria competência de propor uma reforma tributária?
Mesmo sendo deputado estadual, é possível formular projeto de lei e enviar para a esfera federal. Além disso, há sim a permissão de o Estado de repensar o ICMS.
 
Não seria melhor pensar, como deputado estadual, questões voltadas para o Estado ou mais simples, como a redução do ICMS, ao invés de pensar coisas como reforma tributária?
O problema é que essa redução do ICMS, ela “enxuga gelo”. Ela não vai mais profundamente e ela não mexe com nossa principal pauta, o trabalhador. Temos um histórico no Brasil com mais de 40 anos dizendo: “Vamos esperar o bolo crescer, aí gente reparte para a população”, mas para nós, o trabalhador deve vir em primeiro lugar e essa proposta maior precisa ser feita para dar algum resultado.
 
Por que o senhor não se candidatou a deputado federal?
Em alguns casos defendo em esfera federal, mas minhas propostas passam pelo âmbito estadual. Acho que se você pensar o Estado isolado, ou Franca e o setor calçadista isolados, prejudica esse debate mais profundo. Além da questão do ICMS, investimento em tecnologia, para que o trabalhador esteja preparado.
 
O Estado tem direcionado parte dos investimentos em educação para os cursos profissionalizantes em detrimento do ensino superior. Esse é o caminho na área educacional? 
É necessário que haja um aumento de investimentos na educação. Quando você prioriza o profissionalizante ou o universitário, você já está excluindo pessoas do processo educacional. Temos que ter o investimento igual e o necessário em todas as esferas da educação. 
 
Qual seria uma proposta para a valorização dos professores? 
O básico é o salário. O piso é muito baixo e não condiz com a carga horária. Então já é um massacre do professor. E gostaria que os professores da rede pública estivessem aqui para responder. Eles sabem dizer o que o Estado tem feito com eles. Essa política de premiação, que é uma política barata através do bônus, formando como se a escola fosse uma empresa que você rende e é premiado. Todo o sistema educacional o Estado de São Paulo tem que ser repensado. 
 
O senhor como professor como avalia a questão da progressão continuada? 
Encontramos alunos do colegial que têm dificuldade de ler. Imagina interpretar um texto, um texto político. Essa postura tem acelerado muito a degradação do ensino. Esse sistema tem que acabar.
 
A população paulista está sofrendo com a fala de água. Geraldo Alckmin ameaçou sobretaxar quem abusar do consumo com multas. Como vê a questão?
Isso é falta de investimento que vem há longos anos. Falta de interesse político. É muito fácil taxar o usuário. 70% da água vai para agricultura; quase 20% para a indústria. Culpar os 10% que são os usuários é o mecanismo mais fácil. Eles não querem mexer no processo do uso da água pela indústria e pela agricultura, que deve ser repensado também.
 
Na Assembleia, qual seria sua proposta para essa questão?
Não há reutilização de água no nosso Estado. Pouquíssimo se faz nessa direção. Empresas que usam grande quantidade de água que não retorna de maneira potável pra natureza têm que ser responsabilizadas por isso, financeiramente também. Em vez de taxar a população, o pobre, aquele que faz seu uso doméstico, temos que taxar aqueles que usam demais, que poluem as águas, que são os industriais e o pessoal relacionado à agricultura.
 
(Pergunta enviada pelo internauta Guilherme Kalel) Quais projetos o senhor pode apresentar para que São Paulo se torne mais acessível aos deficientes e que eles sejam realmente incluídos na sociedade como um todo?
Levo muito para o lado que tenho contato, que é educação. Hoje temos uma política de inclusão de deficiente nas escolas que é perniciosa. Pegamos profissionais que não estão preparados para atender a esses deficientes, toda uma estrutura escolar que não está preparada para recebê-los e jovens que já têm dificuldade de aprendizado colocamos junto os deficientes. Isso vai comprometer mais tarde a inserção desse deficiente na sociedade. Também, claro, as leis que incluem eles em leis trabalhistas para cotização em grandes empresas.
 
(Pergunta enviada pelo internauta Luiz Pedreiro) - No caso da liberação das drogas, como o senhor imagina um controle do uso? 
Esse debate é o mais espinhoso que temos na nossa campanha. Muitas vezes as pessoas confundem e acham que estamos fazendo uma defesa das drogas, muito pelo contrário. Estamos fazendo uma defesa do combate, só que um combate inteligente. (Não é liberar as drogas, a gente fala em legalização). Vou citar o exemplo do Uruguai pra ficar bem claro como lidaríamos com a questão das drogas. No Uruguai você tem que ter um cadastro para retirar a droga do Estado, ela é controlada. De tempos em tempos você faz exames para ver como é que está a degradação do seu organismo, como que o vício está caminhando e você é obrigado a participar de programas de tratamento. Então, na verdade, você legalizar as drogas é aumentar o controle do Estado. Fazer com que essa pessoa vá ao posto de saúde, faça exames médicos. Então, com certeza, a legalização traz mais benefícios do que problemas.
 
O senhor defende a radicalização da democracia como forma de aumentar a participação do povo. Como seria essa radicalização?
É a possibilidade que a população participe diretamente na construção do trabalho dos nossos representantes. O poder vem do povo. Por que os representantes acabam ficando numa esfera especial e destacada do resto da população? Falando objetivamente: a elaboração de conselhos que já existem, mas que hoje só podem opinar. Que eles possam deliberar, resolver, que possa ser feito plebiscito sobre questões de interesse. Então, é a permissão de que a população participe diretamente, opinando, construindo, vetando propostas que não são do interesse popular. 
 
Essa participação maior e consulta aos eleitores em temas relevantes não pode gerar mais tempo para que as decisões importantes sejam implementadas, não aumentaria ainda mais a burocracia já existente?
É claro que não é possível que a gente coloque para a votação popular todas as questões que são tratadas dentro da assembleia, mas algumas questões que tratam de estruturas básicas, que vêm se repetindo há décadas, elas precisam ser trabalhadas com a população. A população precisa opinar, precisa participar. Vou dar um exemplo da importância: Islândia. Eles repensaram através de um plebiscito o dinheiro investido para pagar a dívida externa. Esse dinheiro pôde ser voltado para outras áreas e foi o primeiro país a sair da crise europeia. Então, por que isso não é levado em consideração no nosso país? Por que a população não pode participar e votar nisso? É essa a grande dificuldade.
 
Considerações finais
Gostaria de agradecer a oportunidade do GCN de estar aqui, conversar com todos vocês. Anos atrás isso não seria possível, que um candidato que tem uma campanha sem financiamento estivesse no mesmo local onde estarão candidatos que estão gastando milhões. Lembrar e convidar a todos que participem da nossa campanha. A campanha está nas ruas. Quarta de manhã fazemos bairros, no restante da semana panfletamos, mostramos a cara. A gente gasta a sola da botina. Queria que todos pudessem acompanhar no nosso Facebook Ulisses Pinheiro, no nosso site ulisses50. Lá tem as nossas propostas mais detalhadas. E gostaria de terminar com um poema meu, Coletivo de Sonhos, que ilustra um pouco a nossa campanha. “Nas ruas, descobri a minha voz. E não era minha, era sua, era nossa, era de todo mundo. Era o mundo impossível que começamos a tecer.” Gostaria de convidar a todos a tecer esse mundo impossível que todos nós francanos, sonhamos. Muito obrigado.

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