Eu moro longe, na casa de um sonho do tempo, que não cabe nesse mundo de pressa. Moro na rua do tropeço no medo. Moro na vila da nudez amarrada -podada- do que se sente. Moro em um peito de mal compasso a questionar “o que” e saber apenas responder “quem”. Lá, onde o amor é rostos, sorrisos e toques. Sei do que se encontra e me desatura, dos sentidos que invento, que meus sentidos inventam. Inventar a maneira de fugir, permear-me do não temer o eu, inundar-me da solidão futura, imantível agregada do ser si. Falta olhar pro céu pra conhecer o brilho, tem dias que se pode cutucar um pedacinho da Lua e enfeitar os cabelos com estrelas pra encantar toda a rua. Falta baixar a guarda e repensar onde é que cabe o tanto de pudor que se engendra nas pernas e não nas atitudes. Moro no poço do amor que não pede, que nunca pediu nada e, que se despe. Que se despe de conceito ou que deseja a cara a tapa, estampada, estapeada, respeitada. Moro n’onde o julgamento não mete medo e nem mete amarras, a segurança é que o amedronta. Onde não se deixa viver um incômodo por mais tempo que deve, apalpa-se-os, verbaliza-se-os, equaliza-se-os e os desfragmenta. A minha casa cabe no meu sonho, o meu sonho não cabe nas quatro paredes da fração do mundo em que me encaixo.
Mariana Ambrósio, leitora
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