O galinheiro havia ficado pronto. Bem cercado, com tela própria na altura de quase dois metros. No interior do mesmo, um cômodo feito em alvenaria de tijolos, meia água, cobertura simples ( e quente ) com telhas de cimento amianto. De um lado do cômodo o poleiro para as aves dormirem, do outro lado os ninhos devidamente recheados com capim, para as galinhas porem seus ovos ou chocarem os futuros pintainhos.
Para iniciar a criação foram compradas três galinhas caipiras, pouco ainda, mas já era um começo. Passados três dias, eis que, num passe de mágica, surgido do nada, pescoço em pé, longilíneo, cantando as primeiras notas de um gogó ainda não tão afinado, sim, um galo ainda jovem, mestiço de índio gigante com malaio, pernudo que só vendo, apareceu lá dentro sentindo-se o dono do pedaço, a cortejar as três galináceas solteironas. E olha que a coisa não ficou só na corte das penosas, deu logo em cima de duas galinhas, a Clotilde e a Francesca, poupando talvez para outra oportunidade a jovem Brigitte, quando voltaria a mostrar seus dotes de conquistador.
A princípio fiquei surpreso, mas em seguida fui juntando as peças da súbita aparição daquele conquistador repentino no terreiro. Lógico, na chácara que faz divisa aos fundos existia outro galinheiro, no qual estavam dois galos, um maior, mais forte e mais idoso que não permitia o namoro do jovem galinho com o seu harém, caindo-lhe em cima com bico e esporas a qualquer indício de audácia amorosa do galinho.
Aconteceu o óbvio. O nosso Don Juan, é claro, percebendo que ali não tinha vez e ouvindo as três galinhas cacarejando do outro lado do muro não teve dúvidas, com um impulso das asas saltou para as aventuras amorosas, proibidas para ele até então. Como o galo não me pertencia, chamei o vizinho para devolver o penoso forasteiro pondo-o a par do acontecido. Ele propôs-me então ficar com o galinho em troca de um saco de milho. Para unir o útil ao agradável fechamos o negócio de imediato. No finalzinho da tarde levei o milho prometido ao vizinho e fui dormir tranquilo; afinal, meu galinheiro já tinha um galo, e cantando. Denominei-o Don Juan.
Na manhã seguinte bem cedinho lá estavam no galinheiro, Clotilde, Francesca e Brigitte, ciscando tranquilas ao seu feitio. Mas, cadê o Don Juan ? Não é que o danado do galinho tinha voltado para sua antiga turma? Comuniquei o fato ao meu prezado vizinho e, se não conhecesse sua conduta ilibada e honestidade, poderia até fantasiar que havia sido vítima de uma tramoia, ou seja, um galo ensinado que aparece e desaparece com o intuito de surrupiar um saco de milho de cinquenta quilos !
Don Juan agora está de volta ao nosso galinheiro. Ficou um pouco menos charmoso com as penas das asas cortadas até que se acostume na nova morada e dessa forma não “pule mais a cerca”. Continua, é lógico, com aquele ar galanteador e de namorador incansável, certo que é o dono do terreiro e dos corações da Clotilde, Francesca e Brigitte.
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras
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