Em minha palestra Tudo Bem Se Me Convém, trato de moral e ética e em determinado momento projeto na tela dois círculos, um preto outro branco, para ilustrar a ideia de que tempos atrás era fácil determinar o que era certo ou errado, conveniente ou inconveniente, legal ou ilegal. E então acontece uma animação e os dois círculos começam a se aproximar. Quando um entra sobre o outro, forma-se área cinza na intersecção. Quanto mais se sobrepõem, maior fica a área cinza. Dou a essa o nome de Zona da Indiferença, onde pessoas, quando forçadas a confrontar questões difíceis, preferem ignorar.
Minha tese é que essa área cinza nunca foi tão grande, especialmente por um certo relativismo moral que toma conta da sociedade. Se não gosto de algo, e explicito, sou atacado pelos paladinos da igualdade, acusado de fascista, coxinha, reacionário, etc. Lembrei-me disso ao ver reportagem sobre o garoto que mexeu com tigre num zoológico e teve o braço dilacerado, sob os olhos do pai. O foi relapso, o garoto imprudente, mas, pessoas viram o menino ultrapassar a cerca, mexer com o tigre. Algumas filmaram a cena, mas preferiram ficar na zona da indiferença. Ninguém pulou no pescoço do pai exigindo que o garoto fosse retirado de lá. Afinal, “o filho é dele”. Sair da zona da indiferença não é fácil. Sabe quando um sujeito fura a fila, você reclama e as outras pessoas olham como se você fosse um estressado?
Ter consciência do que é certo e errado, todo mundo tem, mas, capacidade de agir a respeito, nem todos.
No Brasil dos indiferentes, irresponsáveis e indisciplinados, não basta placa de proibido, precisa ter fiscal. Não basta placa de redução de velocidade, é preciso uma lombada. Se der problema, a culpa será sempre de um ente etéreo e inimputável.
O que liga a consciência de certo e errado com a capacidade de agir a respeito é uma coisa chamada caráter, que anda em falta no mercado.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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