Herança cidadã


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Jovem durante a implantação do regime militar, meus contatos com a brasilidade se baseavam na obrigação cívica de decorar hinos e símbolos nacionais, cantá-los e saudá-los diariamente na escola. Não entendia a necessidade mas, mecanicamente, atuava como cidadão exemplar. Eram tempos complicados em que recebíamos informações da mídia emolduradas pela censura sobre a realidade de tal regime, e éramos intimidados pela ação da PM: três ou mais pessoas conversando na praça poderiam ser considerados transgressores; colegas de 15, 16 anos eram levados em viaturas para suas casas se pegos perambulando após 22 horas; e havia comissários de menores postados na entrada de cinemas e clubes noturnos. Muitos se lembram.
 
Guardei pouca informação ressentida da época, mas muito das filas ordeiras no pátio da escola, mão sobre o coração e olhar altivo ao hasteamento da bandeira. Nunca me esqueci dos hinos. Orgulhoso, descobri depois de adulto que nossos hino nacional e bandeira são admirados em todo o mundo pela musicalidade de um e plasticidade do outro. Nos trinta anos seguintes à queda do regime poucas vezes ouvi o hino fora dos gramados, e raras vezes o orgulho me tomou conta. Nenhuma vez a tão admirada musicalidade e a plasticidade do pendão me provocaram arrepio, pelo menos até a primeira partida da seleção brasileira na Copa das Confederações. O coro de 83 mil vozes, no Maracanã, me tirou da apatia diante de mais um jogo, e me deixou arrepiado. Renovou em mim o orgulho embaçado por décadas de decepção, e me fez retomar a postura com a mão no coração e olhar altivo, como se mirasse no horizonte o estandarte nacional, e com impacto capaz de produzir pequena lágrima no canto do olho. 
 
Foi belo ver a brasilidade renascendo. Intensificou ainda mais o fato de saber que aquela quase oração despejada no estádio, e, via televisão, ao país e ao mundo, não se referia ao jogo, mas a manifestação pura de civismo e amor à Nação. Depois de ver décadas e gerações que confundiram Pátria com governo, Nação com governante, renovaram-se minhas esperanças na essência de qualquer país: seu povo! Governos são transitórios, mas a Pátria não. Governantes são substituíveis, ao contrário de uma Nação. Partidos são voláteis e alguns até mercenários, mas a maioria do povo não.
 
O jogo foi apenas coadjuvante, assim como coadjuvante se sentiu, com certeza, a classe política diante daquela manifestação de poder popular, pacífica. Apesar de saber que ânimos esfriam, as imagens das passeatas e dos cantos ficam gravadas na memória de nossa gente, porque capazes de ecoar sem barreiras por gabinetes sem fim. Impossível prever o que ocorrerá nas urnas das próximas eleições. Tomara que mude a surdez e a negligência que imperam e deixam tudo como está.
 
A necessária explicação: Em junho de 2013, brasileiros foram às ruas protestar por redução da tarifa de ônibus, e, depois, fortemente, contra a corrupção desenfreada. No mesmo mês, aconteceria a Copa das Confederações no Brasil. No início do mês seguinte, julho,  eu e Alexandre Polo Fischer, companheiro de trabalho no GCN, trocamos ideias sobre heranças daqueles eventos. Pedi-lhe que escrevesse sobre. Publiquei em 7 de julho. Este ano, terminada a Copa do Mundo, lembrei-me daquela nossa conversa, já que o povo tinha acabado de dar outra prova de amor ao Hino e à Nação, nos campos. Deveria ser só uma lembrança, mas, foi mais. Foi um quase aviso. Era 17 de julho e eu estava em São Paulo, na Francal. A notícia me derrubou:  Alexandre tinha morrido! Fui ao texto que ele escreveu ano passado, este, que você acaba de ler. Resolvi republicar. Tem que fazer pensar quem ainda se mantém em silêncio mas sabe que precisa fazer diferença. Quando a gente fala bem alto e corajosamente, as ideias não morrem. Tornam-se herança, boa e poderosa herança.
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br

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